09/11/2025 as 11:05

OPINIÃO

Burnout e a cultura da produtividade: uma análise psicológica

Frederico Alves de Almeida Aragão, psicólogo (CRP 19/2849), formação em teologia, mestre em filosofia, professor de psicologia no ensino superior, atua como psicólogo clínico e já atuou no CRAS, CREAS, CASA LAR e SISTEMA PRISIONAL.

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Sendo professor universitário, já ministrei inúmeras disciplinas no curso de psicologia e uma delas foi Desenvolvimento Humano. Quando falava especificamente do fim da adolescência e o início da vida adulta, mostrava aos meus alunos como, de poucas décadas para cá, o fim da adolescência foi se estendendo para uma idade que, até então, era de pessoas que já tinham constituído família, por exemplo. Refiro-me à clássica idade dos 18 anos que era o marco transicional da adolescência para a vida adulta. Tal idade estava atrelada ao fim dos estudos (ensino médio) e o início da vida profissional. Sim, décadas atrás, o ensino médio era suficiente para que pessoas começassem a trabalhar e, por incrível que pareça, conseguir sustentar famílias com dignidade. Se você é nascido da década de 90 em diante, sugiro uma experiência: pergunte aos seus pais e avós o que uma pessoa da geração deles precisava para casar, morar juntos e ter filhos. A resposta pode te impressionar.

 A necessidade de ter ensino superior, ou seja, estudar durante (em média) mais quatro anos após o fim do ensino médio foi atrasando a saída da casa dos pais. Mas não é só isso, uma graduação também passou a não ser suficiente para garantir uma vida digna para muitos. Sendo assim, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado foram se tornando cada vez mais comuns como necessidade de qualificação para conseguir um bom emprego/trabalho. Para além disso, décadas atrás, o ensino público era considerado melhor que o privado e os planos de saúde eram apenas para os mais privilegiados. O que adolescência, vida adulta e trabalho têm a ver com Burnout? TUDO!

Por conta dessa mudança de necessidades relacionadas à quantidade de estudo e trabalho, nós tivemos que começar a investir mais tempo nos preparando para sair de casa e, com o advento da internet e o crescimento da concorrência profissional, precisar produzir mais para sermos relevantes no mercado de trabalho, conseguindo sustentar aquilo que é o propósito da nossa preparação. Tantas variáveis geraram uma equação onde a pressão para produzir pode tornar-se adoecedora.

E por falar em doença, BURNOUT ou síndrome do esgotamento profissional, é um distúrbio emocional de exaustão física e mental causado por estresse crônico no trabalho. Ele é caracterizado por sintomas como cansaço extremo, desmotivação, sentimentos de fracasso, ansiedade, insônia, e pode levar a problemas de saúde mais graves. A mudança na relação entre as pessoas e o trabalho resultou em uma série de efeitos para as pessoas, começando pelo maior investimento de tempo para ter resultados satisfatórios. Com menos tempo sobrando para si, menos qualidade de vida, mais cobrança, mais comparação, mais metas, menos cuidado com o corpo, com as emoções, menos tempo para a família...

O objetivo desse texto não é sugerir que as pessoas deixem de se relacionar com os desafios atuais fugindo deles, mas refletir sobre o porquê do burnout existir, como lidar com esse desafio e, principalmente, prevenir situações onde não haja equilíbrio, propósito claro e cuidados básicos com a saúde. Saber como um problema surge ajuda a prevenir sua existência. A busca pelo equilíbrio é essencial para todo e qualquer ser humano, esse equilíbrio significa colocar cada coisa no seu devido lugar. É pensar sobre o padrão de vida que se deseja ter, se é ou não factível, quais os custos (inclusive da saúde) possíveis e o sentido que isso tem na sua vida. O burnout é o sintoma de uma sociedade que precisa produzir mais do que aproveitar aquilo que se produz, é a simbolização de um momento em que nos afastamos de coisas essenciais para buscar outras coisas que podemos descobrir depois serem secundárias. Já que é para produzir, avalie se o produto final satisfaz e vale a pena.