11/11/2025 as 08:21

OPINIÃO

Na barbearia: reflexões sobre o Enem, o ensino superior e os desafios éticos da formação

Daniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe.

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Passado o Enem, os alunos se encontram esgotados e ansiosos à espera do melhor resultado. Como professor do ensino médio há alguns anos, percebo o quanto, apesar de cada vez menor, a procura por um curso superior ainda mobiliza alguns sonhos. É, no entanto, cada vez mais evidente o número de estudantes que não veem o ensino superior como um caminho possível de formação.

Nesse período de reta final de preparação para o exame, a pergunta que mais ouço é: “Qual curso devo fazer?”, “Qual curso é mais rentável?”, “Como posso ficar rico a partir de um curso universitário?” — perguntas que revelam a centralidade do sucesso econômico em detrimento da dimensão formadora que o ensino superior pode oferecer.

Muitos esquecem que a universidade é também um espaço de construção humana e crítica, algo que se realiza especialmente através do estudo de disciplinas como Ética, Sociologia e Filosofia.

Recentemente, propus a meus alunos uma reflexão a partir de uma experiência pessoal. Certa vez, sentado na sala de espera de uma barbearia, conversei com um homem que aparentava estar em crise. Ele dizia não saber mais quem era, pois havia “perdido sua identidade”. Num primeiro momento, pensei que se tratasse de um documento de identificação — perguntei sobre sua carteira de identidade, sobre algum documento funcional, qualquer coisa que pudesse servir para identificá-lo.

O homem, porém, respondeu que havia perdido sua conta no Instagram. Pedi que falasse mais sobre o assunto. Pensei comigo: “não pode ser apenas isso”. Era sofrimento demais para estar restrito a uma conta de rede social.

Ele então seguiu se lamentando. Dizia estar perdido, ter perdido sua vida. Todas as suas fotos, seguidores, curtidas… Perguntou-me se eu tinha noção do tempo que levara para conquistar 20 mil seguidores. “Minha vida era perfeita no Instagram”, dizia. “Todos me admiravam e reconheciam como excelente profissional, marido exemplar, ser humano impecável.” Cada curtida o definia um pouco mais. Cada postagem, cada compartilhamento dava cor e vida à sua identidade virtual — uma identidade espetacular, refletida na tela.

Aos poucos, compreendi o que realmente se passava. Sua vida pública e espetacular havia substituído sua vida privada e real. Agora, diante da própria imperfeição, ele se via incapaz de lidar com a diferença entre o personagem e o homem. Na vida virtual, era uma referência, um modelo, uma inspiração — fonte inesgotável de reconhecimento. Na vida real, em prantos, confessava: “minha vida é podre”.

Guy Debord, em sua obra A sociedade do espetáculo, antecipou com precisão a lógica dos nossos tempos. Vivemos hoje cercados de pessoas — jovens e adultos — que reduzem suas vidas ao que conseguem exibir nas telas do celular. A dimensão ética cede espaço ao que é mais consumido e visualizado, e o bem comum evapora diante do imperativo da visibilidade.

Retomando a conversa com meus alunos, devolvi a eles o questionamento inicial. A pergunta não deveria ser “Qual curso é mais rentável?”, mas sim:
“Qual curso me dará as ferramentas para compreender a realidade e me tornar um ser humano autônomo, ético e capaz de resolver problemas complexos na vida real — e não apenas na tela?”

O estudo da Ética, da Filosofia e da Sociologia é justamente o que pode ajudá-los a recuperar a “vida real” que o homem da barbearia perdeu. É o que permite que definam o sucesso a partir de seus próprios valores — e não pelas curtidas de 20 mil desconhecidos.