28/11/2025 as 08:12
OPINIÃODaniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe.
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De volta à barbearia...
A promoção do shampoo estrangeiro com Minoxidil e extrato de Babosa acelerou meu retorno à barbearia — e também o gasto do dinheiro que antes eu havia poupado. Não poderia deixar aquela oportunidade passar. O produto prometia resultados imediatos, e os cabelos pareciam realmente crescer após uma única lavagem. De fato, os shampoos estrangeiros são mesmo superiores.
Um duplo espanto marcou minha chegada e minha sentada na cadeira da barbearia. Da última vez em que estive ali, há uns 15 dias, meu cabelo havia crescido cerca de 15 centímetros, o que despertou a admiração de Manuel, meu barbeiro favorito.
— Há anos não vejo algo assim — comentou ele. — A última vez que me deparei com um crescimento tão rápido foi há 20 anos, em Lisboa. Esse shampoo é português, não é?
Pois bem: Joaquim fez fortuna com ele tempos atrás, antes que a indústria de transplantes capilares dominasse o mercado.
O segundo espanto veio com o encontro inesperado de um aluno que eu não via há anos. Na última vez em que tive notícias suas, ele estava fazendo doutorado na Europa. Ao dirigir-lhe a palavra, por um instante achei que havia me confundido, tanto pela timidez quanto pela tristeza com que me respondeu. Estava lacônico, sem nenhuma tirada espirituosa em língua estrangeira.
Pedro sempre demonstrou profunda admiração pela cultura europeia. Costumava dizer que todo o seu estofo subjetivo era fruto de um “inconsciente europeu”. Quando lhe perguntei como estava, limitou-se a responder, com a entonação de um bom português:
— Agora tudo está bem.
Perguntei o que o afligia: se havia acontecido algo que justificasse aquela melancolia. Por um momento, imaginei que fosse o aumento no preço do corte de cabelo. Mas Pedro logo começou a falar:
— Retornei ao Brasil há três meses. Posso lhe dizer, com toda sinceridade, que agora estou em casa. Nunca fui tão maltratado e humilhado, tão apagado na minha vida — lamentava. — Professor, meu sonho era estudar na Europa, colocar em prática os idiomas que aprendi, nutrir-me daquela cultura que sempre admirei! Fiz o trajeto que sempre planejei, o projeto que, para mim, tinha como ponto de chegada o território além-mar, o retorno ao “continente-mãe”.
— Agora está tudo bem — respondi. — Você está em casa. Logo essa experiência ruim vai passar.
— Não se trata apenas disso! — retrucou.
Ele contou que, na véspera, ao voltar da padaria, viu dois jovens conversando no ponto de ônibus. Falavam sobre os grandes feitos da humanidade e concluíam que, no fim, a Europa era o berço da civilização. Aquilo lhe pareceu curioso — e triste.
— Por um instante, me vi espelhado neles — disse. — Dentro do ônibus, no celular, li a notícia da grande conquista da ciência brasileira ao desenvolver a primeira vacina contra a dengue em dose única. Senti vergonha! Sempre menosprezei minha terra, minha cultura, meu lugar. E, naquele momento, entendi o que de fato havia acontecido comigo — e que também se refletia naqueles jovens.
— Desde muito cedo, dentro e fora da academia, somos ensinados a aceitar com resignação e respeito aquela cultura “ilustrada” — a única que alguns reconhecem — continuou Pedro. — De cima para baixo, apagamos os rastros da nossa própria história. E seguimos perpetuando uma narrativa contada a partir da perspectiva única do vencedor, como diria Walter Benjamin.
— Depois que passou o momento balzaquiano das “ilusões perdidas”, vi-me imerso num conto de Lima Barreto — completou.
“Por que não valorizamos nossas conquistas? Será mesmo que o nosso povo não tem valor? O que nos faz abaixar a cabeça?”
— Devemos estar sempre alertas, como nos escreve Lima Barreto, a partir da vivência de Angélica, diante da impaciente, imperiosa, forte, rude e autoritária campainha que anuncia a chegada dos hóspedes vindos do além-mar?
— Ou devemos nos acomodar e aquiescer ao mantra, embebido num darwinismo grosseiro, que Benevente pronuncia ao declarar que a lei do mundo é a vitória dos fortes sobre os mais fracos?