09/12/2025 as 07:59

OPINIÃO

Finitude, Amor e Violência: Reflexões de um Analista no Cotidiano

Daniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe

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Os acontecimentos das últimas semanas ainda repercutem no quase fabulário cotidiano. No trajeto rotineiro para a padaria, deparei-me com uma marcha que denunciava a violência, a indiferença e o feminicídio. Uma multidão em polvorosa protestava contra a absurda e ascendente violência em um país que ocupa o 5º lugar entre os que mais matam mulheres no mundo.
De volta à cafeteria...

Acho que peguei tudo: requeijão cremoso, parmesão ralado, avelã, manteiga e morango. Não faltava mais nada. Quando o jovem apaixonado passava pela sessão dos descartáveis, ouviu um homem falando sozinho:

— Por que Deus permite que ela sofra assim? Ela sempre foi crente, devotada… dedicou-se veementemente à caridade. Não que a Igreja fosse contrária ao casamento, mas a aliança que ela usava simbolizava o matrimônio com Cristo — ele dizia. — É muito sofrimento…

Ao perceber a presença do jovem, o homem levou um susto.


— Mil perdões, moço — disse, olhando-o de cima a baixo. Recolheu alguns copos descartáveis jogados no carrinho e se afastou. Em seu peito havia um adesivo que indicava ser ele acompanhante do Hospital Regional. Pela fisionomia, parecia não dormir há dias.
“Às vezes a vida é muito dura”, pensou o jovem apaixonado. “Não falta mais nada… espera, quase me esqueço da heterophyllus.”
Meu amor ama Artocarpus — ele suspirava — ela é tão linda…

O jovem estava apaixonado. Morangos, chocolates, avelã… havia todo tipo de especiaria naquele carrinho. A expressão de paz e serenidade em seu rosto denunciava o êxtase amoroso que o movia.

— Seis e cinquenta da manhã… preciso me apressar. Tenho de estar no hospital às sete. Mas, antes, preciso passar na igreja — disse o homem maduro, apressado, deixando a sessão dos descartáveis em direção ao caixa.

Ao passar pelo balcão da confeitaria, não deixou de reparar no luxo do lugar: espelhos belgas, vitrais e mobiliário todo em madeira de jacarandá. Herdeiro da Belle Époque. O homem maduro observou outra fisionomia, pertencente a um tipo curioso, sentado, que o encarava atentamente: a leveza dos gestos, a forma como entornava a xícara de café, os óculos de armação circular que sugeriam certa superioridade — o ar de um suposto saber.

— Meu irmão tem uma camisa daquela cor, verde bambu… Onde aquele folgado está a uma hora dessas? — murmurou. — Minha mãe fez tudo por eles…
Na saída da cafeteria, o jovem apaixonado viu o homem maduro e triste atravessar a rua e entrar na igreja da esquina. Havia acabado de desembolsar 500 reais para pagar o frete da jaca. Pelo volume do Artocarpus heterophyllus, foram necessários cinquenta homens para manusear a fruta até o caminhão.


Meu amor vai adorar a surpresa… Lá vai o moço da seção dos descartáveis. O homem deve estar arrasado. Talvez Deus lhe conceda algum consolo — pensou.

Diante da cena, o jovem apaixonado começou a divagar sobre o sentido da vida. Pensou na possibilidade de perder alguém próximo, de perder sua mãe, sua irmã ou seu grande amor — algo até então inédito em sua experiência. Desde muito cedo, porém, preparava-se para quando a desventura da morte viesse visitá-lo. Mas o horizonte de uma agressão, assédio ou violência contra os seus — ou melhor, contra aquelas que amava — o incomodava, embora o mesmo tipo de violência fosse ignorado no horizonte mais amplo.


Recordou-se do que Freud escreveu em Reflexões para os tempos de guerra e morte: a vida só vale a pena porque um dia acaba — porém não sabemos a hora. Mas o que dizer sobre todo o resto? A morte é o caso extremo, mas até lá muito sangue é derramado. Muito sangue em nome da proteção, da macholência, dos costumes e das boas maneiras.

Lembrou-se então de uma história curiosa que seu avô sempre lhe contava: Ésquilo, dramaturgo grego, vivia dizendo que morreria com um teto desabando sobre sua cabeça e, por isso, evitava passar por edificações pouco confiáveis. Contudo, quis o destino que ele morresse ao ar livre, esmagado por uma tartaruga que despencou do bico de uma águia. Talvez isso se aplique à morte natural, proveniente da ordem do acaso. Mas o que dizer sobre uma estrutura que normaliza ou passa pano para a violência contra a mulher? Discursos polidos carregados de retórica não escondem o incômodo que essas questões provocam naqueles que se camuflam sob a máscara do cidadão de bem.

Na igreja, o homem maduro seguia seu ritual matinal:
Nunca fui muito crente, conversava consigo próprio, mas sinto algo aqui dentro que me tranquiliza. Sempre achei os ritos tediosos, embora minha mãe soubesse, no fundo, que isso mudaria com o tempo. Mesmo sem forças, ela estendia a mão na hora da transmissão da Santa Missa pela televisão. Em seu lugar, eu estaria maldizendo Deus. Por que Ele permitia algo assim? Por que permitia uma morte tão sofrida?

Lembro-me de Sêneca ao falar sobre a morte digna. O prolongamento da vida de minha mãe era apenas o prolongamento de seu sofrimento. Tudo o que eu queria era uma morte digna. Espero que Deus ouça essa prece.

Ao sair da igreja, o homem maduro olhou para a fachada da cafeteria e lembrou-se do jovem apaixonado. Deve ser bom estar apaixonado. O amor, em qualquer situação, cumpre o seu papel: afeiçoa-nos ainda mais à vida. Por isso é tão difícil a hora da despedida.

Arrumo as almofadas das poltronas e passo um pano úmido no divã. As reformas na sala de cima aumentaram o volume de partículas de poeira sobre os móveis do meu consultório. Tentarei pedir um desconto no aluguel. Ainda me restam dez minutos até a chegada do primeiro paciente do dia.

Imagens do início da manhã irrompem no meu estado de concentração pré-sessão. Aconteceu algo curioso na cafeteria hoje cedo. As pulsões de vida e de morte se encontram, se entrecruzam e se enlaçam nos dilemas cotidianos. O jovem apaixonado e o homem maduro atestam tal encontro.

Freud, em suas reflexões sobre a guerra e a morte, fala do colorido que a finitude arroga ao sentido da vida. Temos duas condições distintas, que são complementares e reforçam ainda mais as sábias palavras do bom velhinho: a morte é imanente à vida. Mais uma vez, precisamos considerar uma estrutura que faz com que “cuidemos” apenas de duas mulheres igualmente amadas, enquanto ignoramos a dor e o cuidado daquelas que são desconhecidas.
São oito e cinco da manhã e ouço as primeiras batidas diárias na porta.