19/12/2025 as 07:05

ARTIGO

Depois da Meia-Noite: alívio e esperança

Daniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe

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A Mega da Virada pode pagar 850 milhões de reais. Não sei o que faria se ganhasse todo esse dinheiro, pensou o jovem apaixonado.

Eu encheria meu amor de presentes… Se desse, compraria a Lua para ela. Amo tanto essa menina. Eu ajudaria toda a minha família. Daria uma casa, um carro e um relógio para cada um.

Acredito que, com três milhões, consigo uma resolução satisfatória para ajeitar meus parentes. Com o restante do dinheiro — 847 milhões — gastaria tudo com o meu amor. Ela é tão linda.

A loteria, assim como o jogo, funciona sob o mesmo propósito. A cada nova jogada, vislumbra-se a possibilidade de melhorar de vida; a cada repetição, mais uma chance de vitória. As jogadas são independentes e, nesse sentido, não acumulam experiência. Os gestos são automatizados, tal como o gesto do trabalhador na esteira de produção.

Os homens, assim, finalizam o ano acreditando que podem pôr fim a uma vida de sacrifício, miséria e exploração. Imaginam um futuro salvador. Imaginam uma nova vida iniciada com a virada do ano.

Depois da meia-noite, poderei ajudar minha família.

Depois da meia-noite, não aparecerei mais no meu emprego.

Depois da meia-noite, o homem desaparece do mundo.

Prenhes de vivências, encontramo-nos em tempos de relações descartáveis, de conexões superficiais, de vidas vazias. Nosso tempo não permite — ou não prioriza — a conexão humana que toca naquilo que Walter Benjamin chama de experiência autêntica. O prognóstico é desalentador: a cada dia que passa, esta última encontra-se em vias de extinção.

Novamente quis o destino enlaçar aqueles dois clientes da Cafeteria Cristóvão. Dessa vez, o homem maduro e o jovem apaixonado se encontraram na secretaria da paróquia.

O jovem apaixonado, afoito, contava com os ovos da galinha de antemão, ainda dentro da cloaca, e providenciava o casamento mais luxuoso do século. Foi preciso um rolo de folhas extras para o secretário da igreja anotar todo o pedido do enlevado jovem.

Lustres de cristal, flores raras e exóticas, buffet gourmet com menu assinado por chefs de renome internacional, além de um bolo de proporções apolíneas figuravam como alguns itens — uma verdadeira micharia diante dos 847 milhões ganhos na loteria.

Havia se passado um ano desde a morte da mãe do homem maduro. Antes de sua sessão de análise, planejava mais uma rotina diária.

Preciso lembrar de passar na igreja hoje para pôr o nome da minha mãe na intenção da missa.

Ao cruzar a frente do altar, fez a reverência do mesmo modo que fazia sua mãe. Cada vez mais mimetizava os gestos, as súplicas, as preces, os cantos — à semelhança daquilo que sua falecida mãe fazia. O comportamento do homem maduro assemelhava-se, cada vez mais, ao do cirurgião Desplein ao encomendar missas em memória de seu benfeitor. Contudo, contrariando a trama balzaquiana, o homem maduro, a cada dia, mais se desprendia de seu ateísmo.

A frequência às missas, a partir do último dia em que viu os olhos de sua mãezinha abertos, tornou-se cada vez mais constante ao longo daquele ano. O homem maduro passou a frequentar até mesmo a missa da cura, numa tentativa de conversar com a mãe, de sentir sua presença. Se tivesse tido tempo, pensava ele, com certeza teria levado o nome dela para a intenção da missa; com certeza tocaria com fervor o Santíssimo.

Um dos momentos que figuravam, em sua associação livre, como imagem infantil eram as intenções da santa missa proclamadas na igreja. Sempre lhe chamaram atenção.

Contudo, o inconsciente, na véspera do Ano-Novo, apresentou o seguinte conteúdo:
Minha mãe gostava de animais. Porém, só admitia dentro de casa animais do sexo feminino. Assim, pombas, galinhas, cabras, peruas e gansas povoavam o quintal. Tudo isso era resultado de uma experiência passada decepcionante com o gênero masculino.

Isso facilitava a arrecadação para a ceia da virada do ano, uma vez que o prato principal era a perua. A vida no interior era interessante. Às vezes — dizia o homem maduro — a crueza da vida molda a personalidade das pessoas.

Minha avó era uma seca. Uma mulher dura, até certo ponto. Diziam que era uma espiã aposentada, uma vez que jamais obtivemos informações sobre seu passado. Certo dia, remexendo as coisas dentro de um velho baú no quarto do fundo da casa, encontrei um polígrafo, um terço secular, um canivete suíço, um isqueiro Zippo, uma balestra, uma piteira, uma bota de sete léguas, entre outros objetos interessantes que eu não saberia nomear. Por um instante, vi-me num romance de Chamisso, embora minha sombra ainda permanecesse colada ao corpo.

Procurar saber sobre o passado proporcionava ao homem maduro a chance de saber mais sobre si mesmo. O amor materno o preenchera de tal maneira, em todos os sentidos, que por vários anos não se preocupara — nem questionara, em foro íntimo — suas próprias origens.

Para anestesiar a dor, fui uma vez à missa da cura. Por que não pensei nisso antes? Aquelas pessoas rezando de maneira fervorosa… Dava para sentir toda a alma em cada pedacinho do corpo. Deveria ter sido mais fiel. Deveria ter dado ouvidos à minha mãezinha — dizia o homem maduro.

Vou seguir o ímpeto daquele rapaz que encontrei ontem à tarde na secretaria da igreja. Quando sair daqui, vou fazer a minha fezinha. Não é nada mal… 850 milhões.

Talvez não fosse o dinheiro o que estivesse em jogo. Nem o amor, nem a fé. Apostava-se outra coisa — algo que não se diz.

A fezinha, a missa, o casamento e a promessa da meia-noite organizavam-se como nomes distintos para a mesma espera. Uma pausa imaginada, breve que fosse, no curso do que dói.

O tempo, porém, não se detém. O novo ano chega como sempre chega: sem anunciar salvação.

Ainda assim, na fila da aposta, diante do altar ou sob as luzes artificiais da virada, os homens insistem. Porque enquanto houver espera, haverá jogo. E enquanto houver jogo, alguém continuará acreditando que, depois da meia-noite, tudo poderá — enfim — ser diferente.