22/12/2025 as 10:49

ARTIGO

E por falar no NATAL... A influência da igreja no Estado laico.

Frederico Alves de Almeida Aragão, psicólogo (CRP 19/2849), formação em teologia, mestre em filosofia, professor de psicologia no ensino superior, atua como psicólogo clínico e já atuou no CRAS, CREAS, CASA LAR e SISTEMA PRISIONAL.

COMPARTILHE ESTA NOTÍCIA

Na história da humanidade, alguns marcos não apenas mudaram a trajetória da humanidade, mas também fizeram surgir discussões que ainda são necessárias nos nossos dias. Guerras, descobertas científicas, fenômenos naturais e a RELIGIÃO.  Esses são alguns exemplos de questões de séculos ou milênios que influenciam as pessoas, a sociedade e o próprio Estado. No Brasil, por exemplo, temos o chamado estado laico, que nada mais é do que a declaração de que a organização política e administrativa da nossa amada nação não tem religião oficial. Na prática, isso deve significar que o Estado não só reconhece, mas respeita e pode ser influenciado por qualquer credo. Isso é típico de um modelo de constituição que privilegia uma gestão democrática com representantes eleitos pelo povo através das eleições para representá-lo nas decisões da citada esfera política. Esse é o caso dos cargos eletivos do poder executivo e do poder legislativo.

Creio que, até aqui, fica fácil entender que o estado laico não é um problema, mas as discussões em torno desse assunto, sim. O que vimos no Brasil nas últimas décadas é uma discussão horas válida, horas tão rasa que beira à desonestidade. E o ponto de partida para meu argumento é o seguinte: se os políticos eleitos representam os interesses de seu eleitorado, o óbvio é que esses interesses deveriam se transformar em política a partir do momento que tais representantes assumam seus cargos. Para que fique mais claro, pense no seguinte exemplo: O Brasil tem a maioria de pessoas que amam o futebol e um candidato tem como lema de campanha a proposta de elevar o futebol no Brasil a outro nível, incentivar o esporte, financiar clubes, pagar patrocínios para atletas de pequenos clubes, etc... Isso parece incoerente com nossa realidade? Tenho certeza que não!

Toda política é baseada numa ideia, num pensamento ou num conjunto de pensamentos elaborados por um sujeito ou por um grupo, seja ele organizado ou não. Para que um candidato possa participar das eleições hoje, deve estar filiado a um partido político e todo partido político tem um conjunto de ideias que faz com que pessoas tenham o interesse de se associar ao grupo. Depois que esse partido, a partir de seus políticos eleitos, assumem o poder, colocam em prática aquilo que escreveram em seus documentos de fundação do partido. Em resumo: um grupo de pessoas se reúne com um propósito/ideal comum, lutam para ter representantes eleitos e, caso eleitos, colocam as ideias de seus partidos em prática. No Brasil, é livre a expressão de ideias e pensamentos, seja individualmente ou politicamente.

Se isso está claro para você e não parece ter algo de errado, considere então como um país como o Brasil, que tem a maioria de pessoas que assume um credo religioso, poderia ficar sem representantes desse credo na política. A laicidade é o assumir de uma postura democrática onde o Estado não coloca uma religião acima das demais, mas, esse mesmo estado laico é aquele que é influenciado pelos pensamentos de seu povo. O Brasil é um país de maioria cristã e, sendo assim, é mais que previsível que representantes desse grande grupo desejem influenciar o Estado a partir daquilo que forma sua base ideológica. A Bíblia é o livro mais vendido/lido do mundo, ficando muito à frente do segundo colocado. Essa mesma Bíblia é um conjunto de livros que contém, dentre outras coisas, valores, preceitos éticos, políticos e econômicos estudados durante séculos não só pelos que creem no aspecto espiritual da Bíblia, mas por aqueles que entendem que o fenômeno da Bíblia tem implicações diretas na sociedade.

A essa altura, o retorno ao título desse texto pode ajudar a lembrar o ponto chave dessa discussão: a influência da igreja no Estado laico. Se você conseguiu entender que influenciar é diferente de determinar e que, num país democrático como o Brasil, todo pensamento é passível de ser considerado pela sociedade, então entendeu também que a INFLUÊNCIA da igreja não é apenas óbvia e esperada, mas, DESEJADA. Isso mesmo, é desejável que o maior sistema de crenças do Brasil tenha seu espaço no debate político sobre questões centrais como: vida, economia, gestão de recursos... Se isso (a influência) não acontecesse, algo muito errado estaria acontecendo. Como imaginar que o maior sistema de crenças de um país não tem sua livre expressão na política?

Essa discussão tem outros pontos cruciais, mas é inegável que qualquer discurso a respeito do cerceamento da expressão de uma crença tão expressiva deve ser visto, no mínimo, com estranheza. Uma democracia só é democracia de fato quando há possibilidade de expressão livre, não apenas no discurso, mas na vida cotidiana também. E já que estamos na semana do Natal, convido você, meu caro leitor, a refletir sobre aquilo que você tem acreditado e vivido. O Natal é a data em que se convencionou comemorar o aniversário de Jesus Cristo e, mesmo que você não seja cristão, pode considerar os ensinamentos do homem que dividiu a história da humanidade em Antes e Depois dele. Natal é tempo de perdão, reconciliação, amor e confraternização. Agora, consegue pensar num Estado INFLUENCIADO por essas ideias?

Seja pela igreja, pelo Estado ou no seu próprio âmbito familiar (mesmo não sendo cristão), desejo que todos esses ambientes representem para você aquilo que Jesus, como Filho de Deus ou como símbolo, trouxe como influência para a humanidade. Que você ame e seja amado, que você perdoe e seja perdoado, que haja justiça, que haja reconciliação! Feliz Natal!