25/03/2026 as 09:01

ARTIGO

O peso do silêncio que resta

Daniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe

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Esquecemos, às vezes, o quão frágeis somos. Imersos na extenuante rotina, não percebemos o quanto aquilo que temos de mais básico, de mais simples — piscar os olhos e levantar as mãos — torna-se extremamente valioso quando estamos próximos do fim, divagava o homem maduro.

A rotina hospitalar, para além de todo o sofrimento individual que inevitavelmente demanda a despedida do amor materno, era matizada pelas mais curiosas e dolorosas histórias.

O homem maduro se sentia como o otimista Cândido. Quando sua atenção era capturada por qualquer outra realidade sofrida, a desgraça alheia sempre se sobrepunha à sua.

Sua mãezinha era uma leitora voraz. Porém, sua força não se restringia apenas à curiosidade pelo encantado universo das letras. Era uma força demasiada — podemos assim dizer.

A mãezinha tivera como espelho sua própria mãe, igualmente guerreira. Esta, descendente de escravos, transmitira uma herança inimaginável de sangue, sofrimento e morte, travestida de vida.


O homem maduro invejava essa força, ao mesmo tempo em que sabia que ela também lhe era imanente.
Contudo, a voracidade da mãezinha era tamanha que, na infância, nada parecia atingir seu filhinho — ao menos assim ela pensava.
Inicialmente, ele não tivera meios para expressar aquilo que também o compunha como conteúdo inconsciente.

Na verdade, o grau de bonomia e benevolência era tamanho que toda a maldade do mundo, aplicada ao seu ser — à sua carne, à sua alma — era transfigurada em questionamentos, reflexões e imaginação.

Nada parecia suficiente para apaziguar o ímpeto violento que o mundo lhe direcionava.
Na recepção da Urgência, enquanto aguardava o cadastro para acesso à ala de internamento, um homem cego lhe chamou a atenção.
Possuía uma voz gutural, grave, de timbre peculiar. Para além dessas particularidades, o ancião era muito conhecido, e todos que passavam por ele o cumprimentavam.

Dentre os assuntos que vibravam nas ondas sonoras emitidas por suas cordas vocais, a curiosidade pelo neto — que adorava séries — capturou por alguns segundos sua atenção. O tom de lamentação atravessava aquela voz. O ancião não fora cego a vida toda; sua entonação denunciava a memória de um mundo outrora colorido.

Quando subiu, não encontrou sua mãe no quarto: ela havia piorado e estava na UTI.
Retornando mais tarde, no horário de visita, levou um romance de um autor que ela tanto amava, Oscar Wilde. “O Fantasma de Canterville” esperava ser devorado com o comprazimento, a economia e a perspicácia próprios de Mainha.

Porém, quando colocou o livro em suas mãos, ela logo se cansou. Sua mãe já não tinha forças para segurá-lo. Ela havia piorado consideravelmente.
Sentiu, pela segunda vez, o prenúncio e a angústia do espaço vazio que o aguardava em um futuro não muito distante.

Aquilo o atravessou como um raio. Como o ancião, sua mãe, a cada instante, perdia vitalidade. Aquela força, aquela agressividade pela vida e com a vida, esvaía-se em uma velocidade absurda.
Voltando, mais uma vez arrasado pelo sofrimento diário que as longas horas no hospital impunham, encontrou o vizinho fofoqueiro retirando correspondências do escaninho na portaria do prédio.

Fofoca e vizinhança são duas palavras que, embora tenham significados distintos, no contexto de sua rotina tornaram-se sinônimas.
O fofoqueiro em questão não era apenas mais um curioso que tomava nota da vida alheia. Ele o fazia com demasiada perfídia, num gozo sádico característico de sua personalidade. Suas calúnias já haviam causado muitos estragos.

Divórcios, assassinatos, assaltos, revoluções, golpes de Estado — para citar apenas alguns dos contratempos que seus comentários maldosos, se levados a sério, poderiam ocasionar.

A língua do sujeito não conhecia limites. Seu “comprimento” não era medido apenas pela quantidade de veneno destilado, mas também pelo tamanho literal do órgão anatômico em questão.

De fato, sua língua era grande. Ele precisava encomendar raspadores especiais. Em avaliações médicas, dizia-se que equipes inteiras utilizavam verdadeiras tábuas como abaixadores de língua. Nunca na história da medicina houvera um caso tão acentuado de macroglossia.
— Boa noite, vizinho! Como anda a mãezinha?

O sujeito era tão inconveniente, falso e vil que até uma pergunta aparentemente preocupada podia esconder outras intenções.
Um de seus habitats preferidos — além da portaria — era a janela, ou a mesa do bar. Batia ponto todas as tardes no bar do Corisco. Diziam que era possível acertar o relógio pela regularidade de sua presença.

Havia algo de profundamente triste por trás daquelas atitudes abjetas. Apesar do tamanho da língua e da necessidade constante de usá-la, poderia, quem sabe, empregá-la para falar coisas boas ou até aprender inúmeros idiomas e ganhar dinheiro com isso.

A macroglossia, no entanto, não podia ser a raiz de tamanha perfídia e mesquinhez. Haveria de haver outra razão — para além da mais evidente.
Imerso em reflexões, o homem maduro lembrou-se de David Hume, em sua investigação sobre os princípios da moral. Para o pensador, é próprio da constituição humana que a felicidade alheia desperte prazer, enquanto a miséria provoca desconforto. O invejoso, porém, é um ressentido, de espírito mesquinho e estreito, que utiliza a imaginação para maldizer e desonrar aqueles que não consegue alcançar moralmente.

Talvez a dor interna fosse intensa demais. Incapaz de lidar com sua própria inferioridade, o brilho do outro lhe causava incômodo, ressentimento e rancor.

O filho abandonado pelo pai. O filho que não pôde demonstrar, a tempo, o amor que sentia pela mãe.
Várias hipóteses atravessavam a mente do homem maduro. A imaginação lhe permitia uma espécie de vingança subjetiva. A impossibilidade do “ser” era compensada pelo triunfo do maldizer.

— Boa noite, vizinho — respondeu ao infeliz, trôpego e anestesiado pelo sofrimento diário.

O outro ainda ensaiou permanecer, como quem busca matéria-prima para futuras distorções, mas encontrou apenas um homem esvaziado demais para ser interessante. Não havia ali escândalo, nem segredo — apenas o lento desmoronar de um mundo.

Subiu as escadas como quem carrega um corpo que ainda respira, mas já começa a faltar. Cada degrau parecia cobrar um pedaço de si. Ao entrar em casa, o silêncio o recebeu com uma frieza inédita, como se já ensaiasse a ausência definitiva.
Sentou-se. Olhou para as próprias mãos.

Piscou.
Levantou-as lentamente, como quem testa um milagre.
Ainda havia movimento. Ainda havia vida.

Mas, pela primeira vez, compreendeu que tudo aquilo — o gesto mínimo, o sopro discreto, a persistência quase imperceptível do corpo — já não era garantia de nada.

Lembrou-se, então, de que a dor, quando não encontra linguagem, muitas vezes se converte em ruído — em fala excessiva, em maledicência, em pequenas crueldades cotidianas.
Talvez fosse isso.

Talvez o vizinho não passasse de um homem incapaz de sustentar o próprio silêncio.

E ele, por sua vez, agora começava a aprender o peso de cada palavra que não seria mais dita.

No quarto, sobre a mesa, abriu um pote arroz congelado. Comeu, vomitou e apagou.