13/04/2026 as 09:21
ARTIGODaniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe.
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O dia veio com o despertar. A noite foi pesada. A escuridão e o peso do cansaço me empurraram para o fundo do colchão. Pude, pela primeira vez, visualizar toda a civilização dos ácaros bem de perto. Eles possuem uma imensa cultura microscópica. Devem odiar noites inconvenientes como essa.
Preciso ir à feira. Às vezes tenho inveja das plantas: elas não precisam fazer compras, manobrar carros ou frequentar academias. Hoje completam-se sete anos da morte da minha querida mãezinha, e preciso ir à feira — organizava-se mentalmente o homem maduro.
Em meio à escolha de quiabos novos, camarões defumados e gengibre sem rugas, encontrei um velho amigo de infância.
— Como anda a vida?
Melhor do que na nossa época, pensei.
— Tudo bem, melhor impossível. Saúde, dinheiro e relativa paz. E o nosso time campeão do estado.
Cumprimentamo-nos e seguimos caminhos opostos.
O bom amigo L., de fato, foi um bom amigo. Passamos maus bocados juntos. Porém, há dias de paz, pensou o homem maduro.
O mimetismo possui uma misteriosa força invisível. De maneira sorrateira e imperiosa, age como mola propulsora de desejos, ações e projetos. Às vezes, só precisamos seguir com a vida como fazem todos os outros. “Apenas siga” — fora seu último pedido. “Não morra atrás de mim” — foram suas últimas palavras.
Entro em casa, pouso as chaves no aparador ao lado da porta. Olho no espelho. A imagem refletida revela algo que eu desejaria apagar — algo como o homem sem reflexo de Hoffmann.
Talvez, de posse da imagem do outro, o mundo fosse diferente comigo: menos cruel, menos agressivo, mais célere. Esse já fora meu mantra — um mantra infantil. O encontro casual na feira me lançou de volta àquela dimensão dolorosa do passado.
Naquela época, o único campo ainda intocado pelo mundo dos homens era o mundo interior. Não que este também não fosse ferido pelas marcas e pela dor que o mundo externo, agressivo e hostil, inscrevia no íntimo. Mas, em casa, no isolamento do quarto, aquela violência parecia oferecer uma trégua.
As orientações recebidas em casa não coincidiam com aquelas encontradas na “humanidade”. Havia dois mundos: um descrito de forma nebulosa, opaca, incompreensível; outro igualmente agressivo, mas, ao seu modo, generoso, acolhedor, amoroso.
Contudo, nos intervalos entre as sessões de violência diária, algumas poucas almas de bom coração se agrupavam para cuidar das feridas em comum, tentando escapar, juntas, daquele caos doloroso que insistia em nos fazer sangrar. L. fazia parte desse grupo. Juntamente com mais dois companheiros, nossas dores eram atenuadas. Sorrisos, lealdade, amizade e cultura surgiam como valores de resistência e esperança no mundo dos homens.
Talvez houvesse algo de errado com minha imagem, pensava o homem maduro. Seriam minhas roupas? Meu corte de cabelo? A cor da minha pele? Eu os via. Eu queria ser como eles. Doía — eles não me viam. E a dor era tamanha que, talvez, tornando-me um deles, tudo isso acabasse.
Por que o Criador me fez assim? Tão diferente? Tão repulsivo?
Ainda criança, o homem maduro foi informado de que sua permanência ali — naquele lugar ao mesmo tempo acolhedor e agressivo — poderia ser passageira, caso não se comportasse. Como outras crianças, ele também poderia ser devolvido. Só Deus sabia para onde.
Sua origem era incerta. Fizeram-no acreditar que era sorte sua ter encontrado morada ali — mesmo que ex nihilo, como a criação do mundo. Sua origem, família, paternidade — tudo era metafísico.
Os anos passaram. Outras crianças chegaram. Não tão jovens quanto ele, mas igualmente humildes, desamparadas, desgarradas do mundo. Crianças sem passado.
As instruções do ambiente familiar eram simples: obedecer às ordens estabelecidas. Contudo, esse acordo tácito nem sempre era cumprido. Alguns, por temperamento resistente, insurgiam-se contra a rigidez daquele ambiente amoroso e agressivo.
Por vezes, uma briga se iniciava. A explosão de cólera era tamanha que golpes e sangue se sucediam — e, se prolongados, poderiam levar a desfechos fatais.
A única origem comum a todos ali parecia ser divina. As orações precisavam estar na ordem do dia. Aqueles que aceitavam passivamente as instruções eram recompensados. Recitavam-se textos sagrados de cor; quanto mais novos conseguiam repetir corretamente uma oração, mais o ambiente ao redor se transformava.
A escola, porém, era o inferno propriamente dito. As orações de nada adiantavam para livrá-lo das humilhações e agressões.
Mas a imaginação permitia a fuga. Como escreve Freud em O poeta e o fantasiar, o homem cria sonhos diurnos para corrigir uma realidade indesejável. O bom velhinho sempre tem razão.
Em casa, a passagem pela exígua porta escondia a dimensão daquele palácio eclesiástico anexado à instituição religiosa. A rotina ali era mantida: cultos duas vezes ao dia, roupas austeras, disciplina rígida.
Ainda assim, o ambiente “eclesiástico” não conseguia neutralizar a vivência escolar.
Os dias eram maçantes, tediosos e opacos — em contraste com o barulho da felicidade efusiva das crianças que brincavam na rua. Desejava puxar o novelo do tempo, acelerar a vida, escapar de si.
Mas o tempo, indiferente aos desejos dos meninos, seguiu seu curso.
E agora, diante do espelho, o homem maduro compreende: não era a imagem que estava errada, mas o olhar que lhe foi imposto sobre ela.
A criança que desejava desaparecer sobreviveu.
E, de algum modo silencioso, ao lembrar, ela finalmente começa a existir.