24/04/2026 as 09:37
ARTIGODaniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe
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O paciente das 10h15 acabara de desmarcar a consulta sem motivo justificado. Talvez estivesse resistindo, pensou aquele tipo curioso, apoiado em suas teorias. Na estante à frente, o volume XXI das Obras Completas de Freud encontrava-se saliente. Algo nele reluzia um brilho multicor sob a luz da luminária da mesa. Era uma minúscula cigarra que, a cada dia, aprimorava seu canto sempre que o gabinete se encontrava em completo silêncio.
A leitura de O Mal-Estar na Civilização guiou minha atenção flutuante por remotos caminhos dentro do próprio psiquismo. Nesse texto, Freud observa que o efetivo e admirável progresso realizado pela humanidade ao dominar e subjugar parcialmente a natureza possui um movimento dialético. Nessa direção, o progresso técnico, motivo de orgulho para os homens, não tornou a vida necessariamente mais tranquila ou segura; tampouco os tornou mais felizes. Fechou o livro e saiu para tomar um ar.
Enquanto caminhava pela calçada suja, gélida e insensível, pensou em tudo aquilo que a leitura do livro até então lhe proporcionara.
A tecnologia realmente mudou a vida dos homens. É inegável todo o seu avanço e benefício. Porém, essa mesma tecnologia pode, de semelhante modo, ser muito prejudicial — para não exagerarmos nos termos —, pensava, enquanto flanava no intervalo, aquele tipo curioso.
Novamente no gabinete, a cigarra ensaiava um novo número.
Não estava mais sozinha. Agora compunha um quarteto. E novamente faziam do volume XXI o palco.
Interrompi o ensaio, peguei o livro e verifiquei o celular.
No último fim de semana, trezentos robôs humanoides correram, pela primeira vez, ao lado de maratonistas humanos. No último mês, foi inaugurada uma fábrica de robôs humanoides fabricados por outros robôs humanoides. O ano de 2026 pode ser o ano do lançamento de máquinas capazes de executar tarefas domésticas. Pode também ser o ano que mais contabilize casos de feminicídio, discursos de ódio e desinformação disseminados pela equação perversa dos algoritmos.
A tecnologia possui um movimento dialético. Enquanto a invenção do telefone foi responsável por encurtar a distância entre dois amigos em lados opostos do globo, escreve Freud, as melhores cabeças também são utilizadas para forjar as armas mais letais. Com efeito, a humanidade carrega um indissolúvel mal-estar que, em determinado momento, pode conduzi-la à autodestruição — concluía o bom velhinho, há noventa e seis anos.
Porém, o amor deve escapar a esse prognóstico aterrador...
A leitura foi interrompida por essa frase, que invadiu meu pensamento. Em uma de suas últimas sessões, o não tão jovem apaixonado proferira exatamente essas palavras:
— Duas décadas a mais fazem diferença na vida de um ser humano. Contando em anos caninos, duas décadas humanas equivalem a quarenta e cinco anos do tempo médio de vida de um caramelo. Os anos passaram e a vida mostrou sua face mais crua, árida, cruel e sufocante. Meu corpo mudou e continua mudando numa velocidade absurda. Uma nova marca se apresenta a cada bom-dia dado ao espelho. Os exames de rotina são sempre esperados com medo, expectativa e aflição. Um resfriado demora a passar. Uma minúscula ferida demora igualmente a cicatrizar. Quando jovem, a novidade diária anunciada pelo espelho consistia no aparecimento de uma espinha. Hoje o corpo decai de maneira célere, sem cerimônia, sem aviso prévio: apenas esvai-se.
Fez uma pausa e prosseguiu:
— Mas o amor acalma. O coração aflito respira e se sente aliviado quando cuidado por um amor verdadeiro. O tempo do amor plasma e paralisa o avanço desenfreado do tempo. Os anos de amor perduram e se eternizam. Milésimos de segundo tornam-se horas eternas. Momentos são repassados e atualizados a todo instante. Realidade e fantasia se fundem. Sonho e vigília se dissolvem na temporalidade mágica e cósmica do amor. O amor deve escapar daquele prognóstico aterrador. Você não acha?
Parei por um instante, mas incentivei aquele homem a continuar a associação.
— O amor possui uma força impressionante. Durante anos vi a mesma cena rotineira se desenrolar diante dos olhos. O amor de uma mãe por seu filho era de uma força inexplicável, impossível de ser capturada por qualquer código de signos linguísticos. Quando estudava na universidade, via uma mãe guiar o filho cego e acompanhá-lo, dia após dia, até que concluísse os estudos. Só de contemplar essa cena diária, meu ânimo era restabelecido. Aquele amor fornecia força e coragem nos meus piores dias. O amor se apresentava com toda a sua potência e me contagiava com seu fervor.
Fez nova pausa. A voz agora vinha mais baixa:
— Digo isso também pelo amor que sinto por minha querida esposa. Lembro-me de quando tudo começou. Lembro-me de que ela devolveu a minha vida. Meu Deus... como amo essa mulher! Preciso passar no mercado para pegar a Artocarpus que encomendei. Ela vai amar a surpresa. É isso o que digo, senhor doutor: o senhor já pode sentir toda essa força imanente e dilacerante do amor, que queima, vibra e o salva diariamente do amálgama da rude crueza do mundo?
Agora penso no que disse o paciente naquele dia. O enlevo do amor, que a natureza humana utiliza como véu para a perpetuação da espécie — tal como Schopenhauer descreve na Metafísica do Amor —, talvez operasse naquele sujeito com toda a sua força. A força de Eros, deus primordial, o protógono, mostrava mais uma vez do que era capaz. Freud também estava ciente disso. A pulsão de vida, operando com toda a sua intensidade, implica a reunião contraditória dos homens na civilização.
O amor, tal qual a tecnologia, também possui um movimento dialético, diria o desencantado bom velhinho. Contudo, a força de Eros, que obriga a reunião entre os homens e a perpetuação da espécie, talvez possa mesmo escapar a esse prognóstico aterrador.
Pensou o psicanalista, imerso, desde então, no passado, na teia plasmática da temporalidade inconsciente. Lembrou-se de que uma vez também se sentira apaixonado. Também tivera um grande amor na vida.
Mas, por hoje, preferia acreditar que não.
Levantou-se, apagou a luminária e saiu do consultório. A cigarra silenciou. Lá fora, no entanto, a cidade inteira continuava cantando.