04/08/2026 as 13:43
OPINIÃOFrederico Alves de Almeida Aragão, psicólogo (CRP 19/2849), formação em teologia, mestre em filosofia, professor de psicologia no ensino superior, atua como psicólogo clínico e já atuou no CRAS, CREAS, CASA LAR e SISTEMA PRISIONAL.
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Em algum momento da vida, você já deve ter voltado mentalmente a uma conversa e pensado: “Eu não deveria ter dito aquilo”. Talvez tenha se lembrado de alguém que precisava de sua presença, de uma promessa que não foi cumprida ou de uma decisão cujas consequências só ficaram claras depois. Às vezes, a cena aconteceu há poucas horas; em outras, faz anos. Ainda assim, a lembrança retorna acompanhada de um incômodo que parece querer nos dizer alguma coisa. Esse desconforto tem um nome conhecido por todos nós: culpa. Mas, afinal, como me relacionar com a culpa?
Tenho acompanhado, no consultório e ao meu redor, inúmeras pessoas que relatam um enorme mal-estar sobre esse tema. Geralmente, esses relatos dizem respeito à relação entre o passado e o estado mental e emocional em que elas se encontram atualmente. São relatos que trazem à tona o julgamento dos próprios comportamentos e uma espécie de aprisionamento nesse passado, o qual afeta a própria vida. Se você é adulto, provavelmente já sentiu isso em maior ou menor medida.
O ser humano busca, conscientemente ou não, uma narrativa sobre a própria vida que contemple suas expectativas. Sabe aquele tipo de pensamento a respeito de como sua história será contada? Ou a ideia de como falarão sobre você? A necessidade de encontrar uma resolução para a própria jornada faz com que as pessoas se relacionem com seu passado — recente ou não — de modo a julgá-lo, orgulhando-se ou envergonhando-se dele. Quero dedicar uma atenção especial ao julgamento negativo dos próprios atos.
Do ponto de vista psicológico, a culpa costuma aparecer quando percebemos que uma atitude nossa contrariou um valor ou uma responsabilidade, ou causou algum prejuízo a alguém, inclusive a nós mesmos. Ela nasce da distância entre aquilo que fizemos e aquilo que acreditamos que deveríamos ter feito. Se valorizo a honestidade e minto; se considero importante cuidar de minha família e ajo com indiferença; se prometo lealdade e traio; ou se prometo algo e não cumpro, posso experimentar culpa. Nesse sentido, a culpa revela que temos consciência, valores e capacidade de avaliar nossas próprias escolhas. Uma pessoa incapaz de reconhecer qualquer responsabilidade pelo que faz certamente não vive de forma mais saudável apenas porque não se sente culpada.
Costumo propor aos meus pacientes que experimentem a noção de responsabilidade no lugar da culpa. Isso significa, na prática, que a percepção que uma pessoa tem de seus atos deve ser direcionada pela consciência de que ela é responsável pelo que fez, ou seja, de que existe uma relação de causa e efeito. Isso a ajuda a avaliar seus comportamentos, reconhecendo o que pode ter causado a si mesma e aos outros, mas sem atribuir ao acontecimento uma carga emocional que agrave o problema já causado.
A Psicologia é uma profissão constituída por inúmeras cosmovisões e por teorias formuladas por inúmeros filósofos ao longo da história da humanidade. Sendo assim, o nome Psicologia funciona como um guarda-chuva que abriga diferentes formas de ver e interpretar o mundo e o ser humano. Preciso dizer isso para que vocês entendam que alguns temas podem ser vistos de maneiras bastante antagônicas pelas abordagens psicológicas. Ou seja, um teórico pode falar sobre a importância de determinado elemento, enquanto outro destaca os seus malefícios. Creio que vocês, caros leitores, já estejam entendendo que quero afirmar que a ideia de culpa apresenta essa mesma dinâmica.
Apresento aqui duas visões inicialmente distintas, mas com potencial para serem complementares. Refiro-me à cosmovisão cristã e à filosofia de Nietzsche, filósofo alemão que assumiu um forte posicionamento contra a religião cristã. Parafraseando o filósofo, eu diria: “Não olhe por tempo demais para o abismo, pois ele olhará de volta para você!”. Nietzsche nos alertou sobre o perigo do flerte com os aspectos sombrios do ser humano, e a culpa seria um deles. Cristo, por sua vez, afirmou, no Evangelho de João 16:33: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, pois eu venci o mundo”. Jesus nos ensina que não devemos nos deter naquilo que nos destrói, mas na possibilidade da redenção, remissão dos pecados e mudança para uma vida gloriosa.
O que há de complementar nas ideias de Cristo e Nietzsche? É simples: não fique preso àquilo que o destrói! A culpa tem um aspecto sombrio, com potencial para provocar adoecimento psíquico e impedir a construção do presente e do futuro. Quando mencionei, alguns parágrafos atrás, a substituição da ideia de culpa pela ideia de responsabilidade, pretendi orientar todos a olharem para o erro com senso crítico e propósito, mas não a permanecerem em um estado de mal-estar.
É aqui que precisamos falar da culpa que adoece. Nem toda culpa corresponde a uma responsabilidade real. Há pessoas que se culpam por dizer “não”, por descansar, por não atender a todas as expectativas da família, por adoecer ou por não conseguir controlar escolhas que pertencem aos outros. Também existe a culpa alimentada por exigências impossíveis: ser um pai que nunca falha, uma profissional que nunca se cansa ou um cônjuge que sempre sabe o que fazer. Quando o padrão é a perfeição, qualquer limite humano parece uma falta grave. Nesse caso, a culpa não está apontando necessariamente para um erro, mas para uma medida injusta usada contra si mesmo.
É importante entender que se responsabilizar não significa se condenar para sempre. A saúde mental pressupõe a possibilidade do perdão e do compromisso com aquilo que é bom e ético para nós e para os outros. E a culpa? A culpa o esmaga, o sufoca e o condena. Espero que, a partir da leitura deste texto, você comece a refletir sobre os próprios atos e a assumir uma atitude comprometida com a mudança daquilo que não é bom e com a consciência de suas ações, mas nunca com o aprisionamento em seu passado. O passado serve para nos lembrar de onde viemos, mas não para nos impedir de viver o presente.