19/06/2026 as 11:04
ESPECIALAo longo de sua trajetória, participou ativamente de importantes transformações econômicas e sociais de Sergipe.
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Empresário, engenheiro, comunicador e ambientalista, Jorge Prado Leite deixou um legado que ultrapassa os limites dos negócios, alcançando a indústria, a energia, a cultura e a preservação ambiental. Há pessoas que acompanham a história de um lugar. Outras ajudam a escrevê-la. Jorge Prado Leite pertence ao segundo grupo. Ao longo de sua trajetória, participou ativamente de importantes transformações econômicas e sociais de Sergipe, especialmente na região Sul do estado. Seu nome está ligado à indústria têxtil, ao setor elétrico, à comunicação, à preservação ambiental e ao desenvolvimento de Estância, município que adotou como sua terra e onde construiu grande parte de sua história. Discreto por natureza, nunca gostou dos holofotes. Preferia o trabalho silencioso, os bastidores e a realização concreta dos projetos. Talvez por isso sua história seja, ao mesmo tempo, conhecida e pouco contada. A vida de Jorge Prado Leite se mistura à própria evolução de Sergipe durante o século XX, desde o período dos grandes engenhos até a modernização econômica do estado.
UM MENINO NASCIDO ENTRE TRADIÇÃO E PROGRESSO
Quando Jorge Prado Leite nasceu, em 19 de junho de 1926, Aracaju ainda era uma cidade em crescimento. A capital sergipana tinha pouco mais de sete décadas de existência e se consolidava como centro político e econômico do estado. Filho primogênito de Júlio Leite e Carmem Prado Leite, Jorge chegou ao mundo cercado por uma tradição familiar de empreendedorismo e liderança. Pelo lado materno, era neto do coronel Gonçalo Rollemberg do Prado, proprietário da Usina Pedras e um dos homens mais influentes da economia sergipana. Pelo lado paterno, herdou a tradição da família Leite, ligada à agricultura, à política e à administração pública. Naquele tempo, a economia sergipana girava em torno da produção açucareira e dos engenhos. Crescer naquele ambiente significava acompanhar de perto o funcionamento de grandes propriedades rurais, da atividade industrial e das relações econômicas que movimentavam o estado. A infância de Jorge foi dividida entre Aracaju e a Usina Pedras, em Maruim. Era uma rotina de contato com a natureza, convivência familiar e observação dos negócios administrados pelos mais velhos. Apesar da posição privilegiada da família, os pais faziam questão de proporcionar uma formação baseada na disciplina e no respeito às pessoas.
O menino estudou ao lado dos filhos dos trabalhadores da usina e cresceu em um ambiente de intensa convivência social. Desde cedo, revelou uma curiosidade incomum. Ainda criança, acompanhava fascinado os sobrevoos dos enormes dirigíveis alemães que cruzavam os céus de Aracaju. Os gigantes dos ares despertavam sua imaginação e alimentavam o interesse pela ciência, pela tecnologia e pelas histórias de aventura. Também herdou do avô Gonçalo o gosto pela música. A coleção de discos da família e o hábito de ouvir diferentes estilos musicais contribuíram para formar uma paixão que o acompanharia por toda a vida. Mas a infância não foi feita apenas de boas lembranças. Um grave acidente de bicicleta provocou lesões no pulmão e exigiu tratamento no Rio de Janeiro. A recuperação foi longa e mobilizou a família. Pouco tempo depois, uma tragédia abalou a casa dos Prado Leite. Durante uma brincadeira infantil, o irmão Sérgio sofreu graves queimaduras em um acidente doméstico e morreu dias depois. A perda marcou profundamente todos os familiares e deixou em Jorge a lembrança da fragilidade da vida.
EDUCAÇÃO ALÉM DAS FRONTEIRAS DE SERGIPE
Na família Prado Leite, o estudo era considerado parte fundamental da formação dos filhos. Aos 11 anos, Jorge deixou Sergipe para estudar no Colégio Militar do Ceará. A experiência do internato exigiu adaptação a uma rotina rigorosa e distante da proteção familiar. Mais tarde, mudou-se para Minas Gerais, onde estudou no tradicional Ginásio Leopoldinense. O percurso educacional seria concluído em São Paulo, no Instituto Mackenzie, uma das mais respeitadas instituições de ensino do país. As mudanças constantes permitiram que conhecesse diferentes regiões brasileiras e ampliasse seus horizontes. O jovem sergipano descobria um Brasil em transformação, impulsionado pela industrialização e pelo crescimento das grandes cidades. Embora pudesse seguir carreiras tradicionais da família, como o Direito ou a Medicina, decidiu trilhar outro caminho. A Engenharia parecia reunir todas as características que admirava: organização, planejamento, inovação e capacidade de transformar a realidade. Ingressou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde aprofundou seus conhecimentos técnicos e acompanhou de perto o desenvolvimento industrial brasileiro. A experiência paulista ampliou sua visão sobre economia, infraestrutura e progresso. Mais do que um diploma, trouxe a convicção de que o crescimento econômico deveria ser acompanhado por planejamento e investimento em tecnologia.
O RETORNO PARA CASA
Concluída a formação, Jorge Prado Leite voltou para Sergipe. O estado passava por um momento de mudanças. As atividades econômicas tradicionais conviviam com o surgimento de novas oportunidades industriais e comerciais. Era preciso modernizar processos e preparar a economia para um novo tempo. Foi nesse contexto que começou sua atuação nos empreendimentos da família. A Companhia Industrial de Estância e a tradicional Fábrica Santa Cruz tornaram-se parte importante de sua vida profissional. Mais do que administrar empresas, Jorge enxergava aqueles empreendimentos como instrumentos capazes de gerar empregos e impulsionar o desenvolvimento regional. Seu estilo de gestão rapidamente se tornou conhecido. Era meticuloso, organizado e rigoroso com as contas.
Acreditava que empresas fortes precisavam ser administradas com responsabilidade e planejamento. Funcionários e familiares passaram a reconhecer nele um administrador cuidadoso, atento aos detalhes e comprometido com o patrimônio que lhe fora confiado. Uma história ilustra bem essa característica. Certa vez, um sobrinho visitou a antiga Fábrica Santa Cruz e levou para casa um pequeno saco de estopa como lembrança. Ao descobrir o fato, Jorge pediu que o objeto fosse devolvido. Para ele, nada poderia sair da empresa sem o devido registro. O episódio tornou-se uma espécie de símbolo da sua maneira de administrar: ética, disciplina e respeito às regras. Mas sua visão empresarial ia muito além da organização financeira. Jorge acreditava que o desenvolvimento econômico era capaz de transformar vidas.
A indústria não representava apenas produção ou lucro. Representava emprego, renda e oportunidades para milhares de famílias que dependiam da atividade econômica da região. Essa visão seria determinante para os projetos que colocaria em prática nas décadas seguintes. Enquanto fortalecia as atividades industriais em Estância, começava a enxergar outro desafio para o desenvolvimento do sul sergipano: a necessidade de ampliar a infraestrutura e garantir condições para o crescimento econômico das cidades do interior. Seria essa percepção que daria origem a um dos mais importantes capítulos de sua trajetória e a uma das maiores contribuições para a história de Sergipe.
ENERGIA PARA IMPULSIONAR O DESENVOLVIMENTO
Ao longo da vida, Jorge Prado Leite demonstrou uma característica que marcaria toda a sua trajetória: a capacidade de identificar necessidades coletivas e transformá-las em oportunidades de desenvolvimento. Foi assim que surgiu um dos projetos mais importantes de sua vida: a Companhia Sul Sergipana de Eletricidade, a Sulgipe. Em meados do século XX, muitas cidades do interior brasileiro ainda enfrentavam dificuldades relacionadas ao fornecimento de energia elétrica. A expansão econômica dependia diretamente da ampliação da infraestrutura e da modernização dos serviços básicos. Jorge compreendia que não haveria crescimento industrial, comercial ou social sem investimentos no setor elétrico.
A criação da Sulgipe representou um passo decisivo para o desenvolvimento da região Sul de Sergipe e de parte da Bahia. A empresa passou a levar energia para municípios que precisavam de infraestrutura para crescer, fortalecendo atividades econômicas e contribuindo para melhorar a qualidade de vida da população. Para Jorge Prado Leite, entretanto, a eletricidade significava muito mais do que postes e fios. Significava a possibilidade de instalação de novas indústrias, o fortalecimento do comércio, a geração de empregos, a ampliação dos serviços públicos e a criação de oportunidades para milhares de famílias. A empresa consolidou-se ao longo das décadas como um dos principais empreendimentos do setor elétrico regional e permanece como uma das maiores realizações de sua trajetória empresarial.
COMUNICAÇÃO COMO SERVIÇO À COMUNIDADE
Se havia um setor que despertava entusiasmo semelhante ao dos negócios, era a comunicação. Jorge Prado Leite acreditava que a informação e a cultura tinham papel fundamental no desenvolvimento das comunidades. Dessa convicção nasceu a Rádio Esperança, em Estância. Muito mais do que uma emissora comercial, a rádio tornou-se um espaço de integração regional. Ali havia espaço para notícias locais, prestação de serviços, programas educativos, manifestações culturais e divulgação da música popular brasileira. A paixão pela música, cultivada desde a infância, encontrou na emissora um ambiente ideal para florescer. Jorge incentivava artistas, valorizava novos talentos e promovia festivais musicais, oferecendo oportunidades para músicos e compositores da região. Sua preocupação com a qualidade do trabalho era tamanha que decidiu estudar Jornalismo. Entendia que dirigir um veículo de comunicação exigia conhecimento técnico e responsabilidade social. Era uma postura coerente com sua maneira de encarar a vida. Não bastava administrar um empreendimento. Era preciso compreendê-lo profundamente e buscar constante aperfeiçoamento.
POLÍTICA SEM DISCURSOS
Nascido em uma família tradicionalmente ligada à política sergipana, Jorge Prado Leite poderia ter seguido carreira eleitoral. Convites não faltaram. Em determinado momento, chegou a ser cogitado para disputar um mandato de deputado federal. A ideia, entretanto, não prosperou. Sua vocação parecia estar em outro lugar. Jorge preferia a atuação discreta, os bastidores e a construção de soluções concretas para os problemas da comunidade. Acompanhava atentamente a vida política do estado, participava dos debates e mantinha diálogo com lideranças de diferentes correntes, mas evitava o protagonismo eleitoral. A discrição era uma de suas marcas pessoais. Amigos e familiares costumavam dizer que não gostava de discursos nem de grandes demonstrações públicas. Preferia ouvir, analisar e agir. Essa postura também esteve presente no apoio à trajetória política do filho Ivan Leite. Acompanhava campanhas, discutia projetos e participava dos momentos importantes, mas sempre de forma reservada, mantendo distância dos palanques e dos holofotes. Seu entendimento era simples: as instituições deveriam ser maiores do que as pessoas e o trabalho deveria falar mais alto do que a propaganda.
O HOMEM QUE ENXERGOU VALOR NA NATUREZA
Muito antes de a preservação ambiental ocupar espaço nas agendas públicas e empresariais, Jorge Prado Leite já demonstrava preocupação com a conservação dos recursos naturais. Sua relação com a natureza vinha da infância passada entre fazendas, engenhos e áreas de mata nativa. Essa ligação transformou-se em compromisso ao longo da vida. A Mata do Crasto tornou-se uma de suas maiores causas. Proprietário da área, dedicou esforços à preservação daquele importante remanescente de Mata Atlântica, reconhecendo seu valor ambiental, científico e histórico. Em uma época em que a expansão econômica frequentemente avançava sobre áreas naturais, Jorge defendia a necessidade de conciliar desenvolvimento e conservação. Sua visão era pioneira. Entendia que preservar a natureza significava proteger as futuras gerações e garantir que parte da história ambiental de Sergipe permanecesse viva. A Mata do Crasto transformou-se em símbolo desse compromisso e em um dos capítulos mais importantes de sua trajetória.
ESTÂNCIA NO CORAÇÃO
Embora tenha nascido em Aracaju e estudado em diferentes estados brasileiros, foi em Estância que Jorge Prado Leite construiu a maior parte de sua história. A cidade tornou-se seu principal espaço de atuação profissional, empresarial e comunitária. Ali consolidou empresas, investiu em projetos sociais, apoiou iniciativas culturais e acompanhou de perto as transformações econômicas do município. Sua relação com Estância ultrapassava os negócios. Conhecia a história da cidade, valorizava suas tradições e acreditava no potencial de desenvolvimento da região. Ao longo das décadas, tornou-se uma das personalidades mais influentes do município, exercendo uma liderança construída pela confiança e pelo respeito conquistados junto à população. Mesmo diante das mudanças econômicas e dos desafios enfrentados pelo interior sergipano, manteve a convicção de que investir nas pessoas e nas instituições era o melhor caminho para fortalecer a comunidade.
UM HOMEM DE MUITAS VOCAÇÕES
Definir Jorge Prado Leite por uma única atividade seria uma tarefa impossível. Foi empresário, engenheiro, comunicador, jornalista, radialista, ambientalista e incentivador da cultura. Também foi um homem apaixonado pelos estudos, pela música, pela história e pelas inovações tecnológicas. Gostava de aprender, de observar e de compreender o mundo ao seu redor. Ao longo da vida, construiu uma reputação baseada na seriedade, na ética e na responsabilidade. Era conhecido pela disciplina na administração dos negócios, pela capacidade de planejamento e pelo compromisso com os valores que aprendera ainda na infância. Ao mesmo tempo, mantinha uma personalidade reservada, evitando exposições desnecessárias e acreditando que o verdadeiro reconhecimento vinha do trabalho realizado. Talvez seja essa combinação de firmeza e discrição que explique o respeito conquistado ao longo de décadas.
UM LEGADO QUE ATRAVESSA GERAÇÕES
A história de Jorge Prado Leite é, em muitos aspectos, a história das transformações vividas por Sergipe ao longo do século XX. Ele nasceu em um estado ainda fortemente ligado aos engenhos de açúcar e acompanhou o crescimento da indústria, a expansão do setor elétrico, a modernização das comunicações e o fortalecimento das preocupações ambientais. Participou desses processos não como simples espectador, mas como protagonista. Contribuiu para gerar empregos, ampliar serviços essenciais, incentivar a cultura, preservar a natureza e fortalecer instituições que permanecem importantes para a sociedade sergipana. Sua trajetória demonstra que o desenvolvimento de uma região não depende apenas de grandes obras ou decisões políticas. Depende, sobretudo, de pessoas capazes de enxergar oportunidades, reunir esforços e trabalhar com perseverança em favor do bem coletivo. Ao longo de quase um século de vida, Jorge Prado Leite ajudou a construir um Sergipe mais moderno, mais conectado e mais preparado para o futuro.
Seu legado permanece vivo nas empresas que ajudou a consolidar, nas iniciativas culturais que apoiou, nas áreas ambientais que preservou e na memória daqueles que conviveram com um homem que fez do trabalho uma missão de vida. Mais do que um empresário bem-sucedido ou uma liderança regional, Jorge Prado Leite tornou-se parte da história de Sergipe. Uma história construída com discrição, determinação e a certeza de que o verdadeiro progresso acontece quando o desenvolvimento econômico caminha lado a lado com a responsabilidade social, a valorização da cultura e o compromisso com as futuras gerações.