13/06/2026 as 13:09
ENTREVISTAUma de suas recentes abordagens se debruça no que a Drª. Celi chama de “determinantes sociais” para se referir à correlação das questões de gênero, doenças cardíacas e racismo.
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A médica cardiologista Celi Marques Santos, mestre em Ciências da Saúde, especialista em Cardiologia e Terapia Intensiva, é professora-adjunta de Cardiologia da Universidade Tiradentes (Unit) e membro integrante da Academia Sergipana de Medicina, é a nossa entrevistada da semana. Sempre interessada pelas características peculiares da mulher no que diz respeito à anatomia, fisiologia e fisiopatologia cardiovascular e, principalmente, aos fatores de risco cardiovasculares. Uma de suas recentes abordagens se debruça no que a Drª. Celi chama de “determinantes sociais” para se referir à correlação das questões de gênero, doenças cardíacas e racismo. Aproveite a leitura!
JC SOCIAL - Em síntese, o que é e como acontece essa correlação entre racismo, gênero e doenças cardíacas?
CELI MARQUES- Estes determinantes psicossociais, considerados como Fatores de Risco sub-reconhecidos, entre eles o racismo estrutural e discriminação racial, geram estresse crônico, posterior Inflamação - Disfunção Endotelial - Aterosclerose Subclínica - Disfunção Autonômica e Disfunção Imune, contribuindo para o aparecimento de doença cardiovascular.
JC SOCIAL - Esse tema já foi estudado anteriormente em pesquisas ou abordado na literatura médica?
CELI MARQUES - Sim, a literatura mundial tem enfatizado este tema, considerado como determinantes psicológicos e sociais, algumas vezes denominados como ‘Exposoma’, definido como a totalidade da exposição a que indivíduos estão expostos ao longo da vida e como essas exposições e os fatores de risco sub-reconhecidos afetam a saúde.
JC SOCIAL - Pode-se dizer que o estresse é o fio condutor que “amarra” essas três questões?
CELI MARQUES - Sim, claro, o estresse crônico e outros fatores desencadeiam inflamação sistêmica e consequentemente Doenças Cardiovasculares (DCV) da Mulher. O racismo estrutural e discriminação racial causam disparidade em saúde cardiovascular da mulher. Este e outros fatores de risco sub-reconhecidos, se comportam como estressores crônicos, promovem ativação persistente do eixo neuroendócrino, aumento sustentado de cortisol e catecolaminas, inflamação sistêmica e disfunção endotelial, interferindo na morbimortalidade cardiovascular das mulheres
JC SOCIAL - Existem estatísticas sobre como está o comportamento dos casos de mulheres com doenças cardíacas?
CELI MARQUES - Existem dados internacionais robustos - sobretudo da World Health Organization, do Institute for Health Metrics and Evaluation/Global Burden of Disease (GBD), da American Heart Association e da Sociedade Brasileira de Cardiologia - mostrando que as doenças cardiovasculares (DCV) permanecem a principal causa de morte em mulheres, embora as taxas padronizadas tenham diminuído nas últimas décadas. Há também evidências crescentes de desigualdade racial importante, especialmente entre mulheres negras e indígenas. Em 2021, aproximadamente 30,4% de todas as mortes em mulheres no mundo ocorreram por DCV, sendo no Brasil a principal causa de morte deste público, com fatores tradicionais como hipertensão, obesidade, diabetes, tabagismo e sedentarismo, além de desigualdades sociais, raciais e de gênero.
JC SOCIAL - O fator “renda”, no que diz respeito à desigualdade social, seria mais um elemento desta correlação?
CELI MARQUES - Já é fato de que saúde cardiovascular da mulher não deve estar focada apenas no modelo biomédico e nos fatores de risco cardiovasculares tradicionais, mas, também, deve ser visto sob a perspectiva de gênero, raça, território e desigualdade social. Já sabemos, com base científica, que existem desigualdades objetivamente demonstráveis. Os estudos mostram diferenças em mortalidade, acesso ao diagnóstico, controle pressórico, tratamento, reabilitação, mortalidade materna, prevenção. Essas desigualdades afetam especialmente, mulheres negras, indígenas, periféricas, rurais, de baixa renda. Ignorar isso produz invisibilidade epidemiológica.
JC SOCIAL - Como esses problemas podem ser revertidos?
CELI MARQUES - Na minha visão, o ponto central é que políticas universalistas são fundamentais. Políticas públicas, isoladamente, não conseguem corrigir desigualdades históricas estruturais. Discutir desigualdade melhora ciência e assistência, principalmente quando se estudam populações diversas. Os diagnósticos tornam-se mais precisos, os protocolos ficam mais aplicáveis, a prevenção melhora, a medicina torna-se mais justa e efetiva. Considero isso ciência de melhor qualidade.