21/06/2021 as 10:31
NO INTERIORMais um ano de atividades virtuais, com impactos severos na vida de milhares de trabalhadores autônomos, que fazem do período sua principal fonte de renda
COMPARTILHE ESTA NOTÍCIA
“E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?”. O poema do mineiro Carlos Drummond de Andrade ilustra bem o cenário atual às vésperas da grande festa nordestina: o São João. Pelo segundo ano consecutivo, não há bandeirolas enfeitando as cidades, nem xote para dançar agarradinho, muito menos baião no salão.
Enquanto a pandemia de Covid-19 ainda predomina no Estado de Sergipe, o governador Belivaldo Chagas determinou que os festejos juninos presenciais também fossem proibidos. Seja lá público ou privado, só poderão acontecer de forma virtual, com segurança sanitária, sem a presença de público. O cancelamento das festas interfere diretamente na economia de municípios onde o festejo junino é uma tradição, a exemplo de: Areia Branca, Capela, Estância, Nossa Senhora do Socorro e Rosário do Catete. Os impactos cultural, financeiro e até emocional são relatados por aqueles cuja história de vida se confunde com a festa mais tradicional do Nordeste.
A pandemia abafou, pela segunda vez, o grito eloquente das quadrilhas juninas em meio a multidões, cessou a sinergia entre brincantes e público, e forçou a troca das quadras e praças pelo espaço virtual. Para a quadrilheira Lorena Maia, de 40 anos, sendo 12 deles dedicados a quadrilha junina, manter a magia viva, após dois anos sem os festejos, tem sido muito difícil, mas acredita que a tradição nunca irá acabar no coração de quem verdadeiramente ama o São João. “Nós nutrimos um amor muito grande pela cultura. O amor à quadrilha é algo surreal nas nossas vidas. Hoje, infelizmente, estamos fora de tudo em relação a nossa cultura, porque está muito resumido. Nesse formato on-line, o que se vê são poucas ações acontecendo e, quando precisam de algumas apresentações, são apenas dois, três, quatro pares de casais. Não é a mesma coisa de uma quadrilha completa levando alegria, contagiando o público. Posso dizer que o nosso sentimento é de saudade, de aperto no coração”, relata uma das tantas sergipanas em cujas veias corre mais que sangue, pulsa São João.
Assim como para os quadrilheiros, a ausência das festividades trouxe impactos severos na vida de milhares de trabalhadores autônomos, que fazem do período sua principal fonte de renda. A situação desencadeia prejuízos que afetam desde o comércio local, que se prepara o ano inteiro para receber um volume de visitantes - em alguns municípios, chega a ser quatro vezes maior do que o número total de habitantes da própria cidade -, até diferentes setores da produção turística, como transporte, hotelaria, lojas, bares e restaurantes. Além disso, há ainda uma imensa variedade de ofícios que garantem renda para milhares de trabalhadores, neste período, como costureiras, trios pé-de- -serra, produtores de comidas típicas, e fogueteiros.
Fogueteiros
Com fogueiras e fogos de artifícios proibidos em muitos municípios sergipanos, por determinação de cada prefeito, pois podem agravar o estado de saúde de pessoas com problemas respiratórios, talvez a situação mais dramática, entre os diversos segmentos impactados, seja a dos fogueteiros. Vale destacar que esses trabalhadores não têm como buscar alternativas para que o fogo não cesse, muito menos migrar para o formato de festa junina online. Detentores de uma tradição secular, os artesãos que produzem fogos de artifício e são responsáveis pelo principal produto turístico do São João de Estância, o Barco de Fogo, estão parados há dois anos e sem perspectivas para o futuro próximo. No município há duas associações que congregam oficialmente 30 fogueteiros, mas segundo informações levantadas, o número total no município chega a quase 70. “Aqui estão proibidos fogueiras e fogos de artifícios, então paramos totalmente as atividades. Não fabricamos absolutamente nada há dois anos. Este ano de 2021, nós tivemos uma pequena ajuda da Prefeitura de Estância para tentar amenizar a situação, sendo que foi ainda menor que o auxílio do ano passado. Mas, na verdade, o prejuízo maior para nós tem sido o emocional. A frustração de passarmos mais um ano seguido sem trabalhar e vendo a nossa tradição indo por água abaixo. O pior é que não temos nenhuma expectativa de retorno. A nossa tradição não pode morrer. A nossa festa tem que ser real”, clama o fogueteiro José Dionísio dos Santos (Seu Dió), que há 30 anos trabalha na fabricação de fogos de artifício para os festejos juninos.
Incentivos
Berço da cultura junina no Estado, o município de Estância ficou famoso pela tradição dos barcos de fogo, dos cortejos folclóricos, das apresentações de quadrilhas juninas e dos grandes shows artísticos. O orçamento destinado aos festejos juninos impulsiona sobremaneira a economia da cidade. O município chegava a movimentar, nesse período, algo em torno de R$ 8 milhões, sendo que, deste total, cerca de R$ 3 milhões eram injetados do próprio orçamento municipal na promoção da festa. Recursos esses que são consumidos pela própria economia local.
Assim como em muitas outras cidades, para mitigar os impactos causados com a ausência dos festejos juninos, o prefeito Gilson Andrade conta que, através da Secretaria Municipal da Cultura e do Turismo, está realizando o São João de maneira virtual, com apresentação de lives musicais com artistas estancianos e também com apresentação de agentes culturais como quadrilhas e batucadas.
“Além disso, para amenizar o impacto financeiro dos agentes culturais, artistas, fogueteiros, etc, a gestão municipal também criou o BEM - Benefício Emergencial Municipal - um auxílio de três parcelas de 200 reais”, completa. Ao ser questionado se a prefeitura vai utilizar algum recurso do saldo remanescente da Lei Aldir Blanc para promover alguma ação voltada às categorias impactadas, Gilson afirma que “a gestão encaminhou à Câmara Municipal um projeto de lei para o uso do saldo da Lei (R$ 305.000) que vai contemplar, via edital, fogueteiros, bandas, artistas plásticos, escritores, entre outros”.
Já a cidade de Nossa Senhora do Socorro, dona de um dos maiores São Pedro de Sergipe, o Forró Siri, não pretende realizar o evento no formato online, porém o prefeito Padre Inaldo avisa que o município irá transmitir os melhores momentos do Forró Siri dos últimos anos em data ainda a ser divulgada. “Como forma de auxiliar os músicos e grupos folclóricos do município afetados pela pandemia, realizaremos o segundo Encontro Cultural, edição festejos juninos, onde 100 artistas socorrenses serão beneficiados com o auxílio emergencial da Lei Aldir Blanc”.
Festa do Mastro
Destacada como a melhor festa de São Pedro do Estado, aquela que também encerra os festejos juninos em Sergipe, a tradicional Festa do Mastro de Capela, realizada há mais de 70 anos, é considerada o produto de maior potencial para economia do município. São gerados, no período da festa, mais de 7 mil empregos, e o evento representa, aproximadamente, 60% da população que empreende durante a festividade. Para a prefeita de Capela, Silvany Mamlak, os impactos são imensuráveis.
“O São Pedro de Capela, tradicionalmente, gera a arrecadação em torno de R$ 1 milhãos a cada edição somente em tributos, o que, somado aos dois últimos anos, chegaria a mais de R$ 2 milhões. Desde o início do governo Bolsonaro, não tivemos recursos do Governo Federal, por decisão do próprio governo em não incentivar financeiramente a realização de eventos culturais, como o nosso São Pedro”, lamenta.
Silvany lembra que a primeira vez que Capela receberia uma emenda parlamentar seria no ano de 2020, no valor de 250.000,00, o que garantiria duas atrações nacionais. “Infelizmente tivemos que solicitar prorrogação para outra oportunidade. Também já estávamos fechando parcerias com instituições que gerariam patrocínios no valor de 300.000,00 somente em 2020”, recorda. Para compensar a perda cultural que o momento gera, a prefeita explica que está organizando mais uma edição da Live de São Pedro. “Além de já termos feito a Live Sarandaia, que foi um sucesso de audiência”, acrescenta Silvany.
|Reportagem: Vivianne Paixão/Equipe JC
|Foto: Pritty Reis/Divulgação