28/04/2014 às 10h26 - Cultura

A difícil arte de recordar

Entrevista com a jornalista Eliane Brum, exclusivamente para o JORNAL DA CIDADE.

Por: Suyene Correia/ Equipe JC

Foto: Lilo Clareto

Quem nunca se emocionou com as histórias contadas pela jornalista Eliane Brum é porque ainda não leu nenhum de seus escritos. Caso queira sentir o poder desestabilizador de suas palavras, experimente conhecer as histórias contidas em seus livros “A Vida Que Ninguém Vê” (2006)- Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Reportagem-, “O Olho da Rua” (2008) e “A Menina Quebrada” (2013). Ou mesmo, conferir a reportagem ‘Os Vampiros da Realidade só Matam Pobres’ do livro “Dignidade!” (comemorativo aos 40 anos dos Médicos sem Fronteiras), que dexou a própria Eliane em crise com a palavra escrita.

Por conta da experiência vivida com uma família “chagásica” do interior da Bolívia, a escritora decidiu dar outro rumo ao seu segundo livro de ficção “Meus Desacontecimentos - a história da minha vida com as palavras” publicado pela Editora LeYa (a estreia com um romance, deu-se através de “Uma Duas”, lançado em 2011), que já se encontra à venda nas livrarias de todo o país.  Eliane Brum abre mão de escutar as histórias alheias e aguça a audição para a voz que  vem de dentro, de suas entranhas. Em “Meus Desacontecimentos”, a escritora revisita suas memórias, de infância e adolescência, em Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul. “Nossa vida é nossa primeira ficção”, intitula uma espécie de prefácio, antes de iniciar a jornada, propriamente dita, de questionamentos dos seus significados, que sucede-se através dos capítulos ‘O Túmulo Morto’, ‘A Casa Escura’, ‘Irmãs”, ‘A Novela de Rádio’, etc.

A jornalista, documentarista e escritora, que já trabalhou no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, na revista Época, em São Paulo, e, desde 2010, atua como jornalista freelance, atualmente é colunista do portal do jornal El País. Nas últimas semanas, Eliane Brum tem corrido contra o tempo para dar conta da divulgação do novo livro e participar de eventos literários. A seguir, o leitor poderá conferir uma entrevista que a escritora concedeu com exclusividade ao JORNAL DA CIDADE, em que fala sobre o livro recém-lançado e suas experiências jornalísticas.

Foto: Divulgação



JORNAL DA CIDADE - Em “A Vida Que Ninguém Vê” e “O Olho da Rua”, você busca pelo extraordinário contido na vida de anônimos e consegue resultados primorosos. Como foi o processo, agora, de mexer no seu íntimo, nas suas memórias e fazer brotar também essa “Eliane” desconhecida para os leitores e, porque não dizer, surpreendente?

ELIANE BRUM- Sempre escrevo por absoluta necessidade, por um desejo muito forte. Nesse livro não foi diferente. Comecei escrevendo sobre as pessoas anônimas que, com suas pequenas delicadezas, tinham, em parte, me tornado quem eu sou. Mas, em 2011, tive uma crise com a palavra escrita por causa de uma reportagem imensamente brutal. Pela primeira vez, paralisei e, por duas semanas, não consegui escrever, o que para mim é muito desestabilizador, porque elaboro tudo escrevendo. Naquele momento, a dor não virava palavra, e eu caí num buraco fundo. Quando consegui retomar a escrita, marcada por essa experiência, fiquei obcecada pelos sentidos da palavra na minha vida e o livro mudou de rumo. Iniciei um percurso de dentro para dentro. Queria saber como a palavra me deu um corpo que me permitiu viver. “Meus Desacontecimentos” é a história de como fiz um segundo parto, pela escrita. Esse livro é o meu corpo de letras. Como repórter, sempre pedi às pessoas que se abrissem para o outro, que se contassem. Sempre achei que, quando fosse necessário, eu também deveria ter a coragem de me mostrar, já que não posso pedir ao outro o que não sou capaz de dar. Mas, se todos os livros são difíceis, cada um à sua maneira, esse livro tem sido mais difícil do que os anteriores na hora da publicação. Tenho me sentido excessivamente nua nessas últimas semanas e especialmente agora que ele chega às livrarias do país inteiro. Mais do que uma roupa, o que tirei foi a minha pele. Como então, depois disso, me apresento ao mundo?

JC - No livro “A Menina Quebrada e Outras Colunas”, você parece ensaiar alguns passos para esse livro de memórias, contando histórias familiares pitorescas. Foi a partir daí que surgiu a ideia de escrever “Meus Desacontecimentos” ? O que sua família achou de sua abordagem?

EB- Com a coluna, que é um tipo diferente de texto, comecei a ensaiar algumas aventuras memorialísticas. E a ensaiar esse desnudamento pessoal, já que na reportagem eu conto histórias e desnudamentos de outras pessoas, e na ficção desnudo personagens. Mas, em “Meus Desacontecimentos”, faço um percurso diferente de qualquer outro que já fiz. Algumas pessoas da minha família já leram o livro, outras ainda estão lendo. Cada leitor escreve seu próprio livro, já que não há duas leituras iguais. O mesmo vale para os leitores da família. Para minha filha, por exemplo, o que mais a marcou foram as mulheres. Para ela, as mulheres ganharam voz e outro lugar na crônica familiar, que antes percorriam de forma passiva. Algumas histórias, que na minha narrativa são trágicas, na repetição dos casos de família, por outras pessoas, são anedóticas. São diversos os modos de olhar. Como digo logo na abertura de “Meus Desacontecimentos”, neste livro eu sou aquela que nasce, mas também sou a parteira.

JC - Você presta lindas homenagens a pessoas que marcaram sua vida, direta ou indiretamente, como o índio Pedemar Maraguara Poram; a chefe da seção de livros da Livraria Cultural, Lili Lohmann; a professora de seu pai, Luzia. Teve alguma outra pessoa importante, que porventura, você tenha deixado de citar?


EB- Em “Meus Desacontecimentos” faço um percurso pelas memórias de infância, mas com um foco bem claro. Quero decifrar os sentidos da palavra na minha vida. Assim, as pessoas que viram personagens nesse livro são pessoas importantes na minha história com as palavras. Há outras pessoas que foram importantes de outras maneiras, mas não cabem nessa narrativa. Assim como houve outros episódios fundamentais da minha vida, que não estão contados nesse livro porque se referem a outras construções de mim. Meu desejo não era escrever uma autobiografia, mas sim fazer um recorte. É a palavra a grande personagem dessa história.

JC -O desfecho de “Meus Desacontecimentos” dá-se com você se despedindo da universidade e se preparando para o mercado de trabalho. Para mim, ficou um gosto de quero mais. Há possibilidade de termos um livro no futuro, com relatos de suas experiências jornalísticas?


EB- Que bom que ficou um gosto de quero mais. Contudo, não sei se em algum momento vou mergulhar em outras questões. Eu não sou muito de planejar a vida. Já contei várias experiências jornalísticas em “O Olho da Rua” e em alguns textos na internet. Conto muitas passagens também nas minhas palestras. Acho importante pensar sobre o fazer jornalístico. Mas ainda não senti um desejo de escrever um livro só sobre isso. Em “Meus Desacontecimentos”, acabo fazendo várias pontes entre as escolhas que fiz depois de adulta e os fios que encontrei nessa investigação da infância. Ainda que seja a menina que vá se construindo nas páginas do livro, é a mulher que o escreve. Ou seja, os sentidos do passado só se desvendam dessa maneira porque são contados a partir desse futuro no presente.

JC - Num trecho do livro, um homem durante uma palestra sua, numa favela carioca, comentou, referindo-se à sua fragilidade, “que achava que você se desmancharia, num certo momento”. Diante da violência crescente no país, da impunidade, do desmando e do descaso da sociedade para certos acontecimentos, qual o segredo para não se desmanchar?

EB- Acho que é saber-se quebrada. A força da gente é essa, me parece. Não sinto que estou ficando mais forte com a idade e com as experiências, no sentido de ser menos afetada pela vida, abalroada pela dor dos acontecimentos e, no meu caso, principalmente a dor dos desacontecimentos. Ao contrário, acho que cada vez estou mais delicada, mais seguidamente em carne viva. A diferença é que eu já me sei assim. Faço das minhas fraturas um vitral, dou sentido a esse sangrar. Aceito meu cortes e vou me costurando como posso. Escrever é uma parte fundamental desse processo de renascimento diante de cada pequena morte que compõe uma vida humana. Em certa medida, também é uma escolha. Eu escolhi não me proteger da vida. Pago um preço alto por isso. E aceito.

JC -- Como você avalia o jornalismo brasileiro na atualidade (em termos de conteúdo, ética, inovação)?


EB- Acho que estamos vivendo um momento muito rico no jornalismo, porque momentos de crise têm uma enorme potência criadora. A imprensa consolidou-se, ao longo do século 20, como a narradora hegemônica da sua época. Cumpriu bem o papel de documentar a história em movimento sempre que ampliou as vozes e alcançou complexidade, contexto e profundidade na narrativa do seu tempo. Cumpriu mal seu papel quando reduziu as versões e deixou de contar capítulos inteiros. Falhou todas as vezes em que tentou se colocar como totalmente isenta, imparcial e objetiva – ou como detentora de uma verdade única.  Com a internet, a partir do século 21, e com ainda mais força nesta segunda década, os narradores e as narrativas multiplicaram-se, alterando as relações de poder. Novos espaços de documentação cotidiana foram e estão sendo criados, para além dos tradicionais. Essa mudança – enorme – é compreendida por alguns como o fim do jornalismo. Discordo totalmente. Para que essa tese pudesse ter consistência seria preciso encarar o jornalismo como algo estático, algo que teria sido sempre como hoje o conhecemos – e já estamos desconhecendo. O processo histórico mostra que o jornalismo é um campo em construção, dissolução e transformação, como tudo. Minha hipótese é a de que o jornalismo, nos meios tradicionais e também nos novos, será não mais hegemônico, mas importante, nesse mundo em aberto, se for capaz de fortalecer e qualificar aquela que é sua carne, sua espinha, sua alma e sua razão de existir: a reportagem. Se, em vez disso, quiser competir – ou se confundir – com os relatos ligeiros e superficiais que proliferam na internet, perderá seu ponto de diferença. Pode até conseguir aumentar o número de acessos para suas páginas de imediato, mas, a médio ou mesmo curto prazo, perderá reputação e, por consequência, lugar e relevância na vida das pessoas. É um momento extremamente rico de sentidos e possibilidades o que vivemos, porque, como tudo está em aberto, cada um de nós é também uma espécie de parteiro – ou pode ser, caso não se omita. Cada jornalista pode ser um protagonista desse novo – e um criador, inclusive do seu próprio espaço.

JC -- Quais as vantagens e desvantagens de ser uma freelance?


EB- É uma escolha. Como qualquer escolha, tem perdas. No meu caso, fiz essa escolha, em 2010, de forma bem consciente. Sabia que teria de aprender a viver com menos dinheiro e que não poderia jamais fazer dívidas, do contrário não conseguiria ampliar a minha liberdade, que era – e é – o objetivo maior dessa escolha. Acho que a nossa autonomia aumenta na medida em que aprendemos a viver com menos. Quanto mais dinheiro você precisa, mais escravo você é. E eu estou sempre em busca de ampliar a minha autonomia. Profissionalmente, só faço o que eu quero, só aceito trabalhos que me estimulam, me desafiam ao novo, me emocionam. Acho que essa é uma enorme vantagem numa vida. Tornei-me dona do meu tempo e isso também é grande. No meu caso, não significa trabalhar menos. E nem é o meu interesse. Escrever é minha expressão no mundo, e eu adoro o que eu faço. Hoje meu único compromisso fixo é a minha coluna quinzenal no El País, na qual tenho total liberdade de tema e escrita. Fora isso, estou sempre escrevendo um livro e, às vezes, também um documentário. Trabalho em casa, mas viajo muito. Posso escrever em qualquer lugar, de qualquer lugar. Estou sempre reinventando a minha vida e os meus horários. Posso trabalhar muito num fim de semana e me dar folga em dias da semana. Posso me escutar e entender que é hora de ficar para dentro. Então, paro tudo. Trabalho movida pelo meu próprio desejo, que agora é um e depois pode ser outro. Mas esse é o meu jeito, é como eu gosto de viver. Dá certo para mim, pode não dar certo para outro.

JC - O que você está lendo no momento?

EB- Estou relendo “Voragem”, um livro do escritor japonês Junichiro Tanizaki. Vou participar de um festival literário em Nova York (Pen World Voices Festival), no final do mês, por conta da tradução do meu romance, “Uma Duas”, para o inglês, pela Amazon. Num dos eventos, chamado “Ressonâncias”, falo sobre como a obra de Tanizaki – e especialmente esse livro – ecoou na minha ficção e na minha vida.

JC -- Há possibilidade de você vir a Aracaju lançar “Meus Desacontecimentos”?

EB- Infelizmente, não está previsto nenhum lançamento em Aracaju. Só estive uma vez em Aracaju para fazer uma palestra e adorei a cidade. Fiz também em Aracaju uma das melhores entrevistas da minha vida (com Débora Noal, psicóloga dos Médicos Sem Fronteiras). Gostaria muito de voltar. Mas, em geral, faço lançamentos só nos lugares onde moro ou morei, onde tenho certeza de que os amigos não me deixarão só. Anos atrás me aventurei a fazer lançamentos em outras capitais e tive uma experiência tristíssima no Recife. Uma única pessoa foi ao lançamento. É uma sensação bem dura ficar sentada numa mesa por horas, em absoluta solidão, sem que ninguém se interesse pelo seu livro. Ultimamente, tenho lançado também em Belo Horizonte, mas por convite do Afonso Borges, que criou o “Sempre um Papo”. Então, é um lançamento com conversa, e os mineiros têm me acolhido muito bem. Tomara que algo aconteça e eu desembarque por aí de novo.
 

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