07/08/2017 às 08h29 - Entrevista

“Estamos formando gente para profissões que nem conhecemos”

O Brasil é um espadachim que precisa esgrimir com os dois braços.

Por: JornaldaCidade.Net

O Brasil é um espadachim que precisa esgrimir com os dois braços. É assim que o diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna e conselheiro do Grupo Tiradentes, Mozart Neves Ramos, faz referência à dura realidade de um país que ainda precisa resolver os problemas educacionais herdados do Século XX e, ao mesmo tempo, modernizar a escola para o Século XXI. Na última terça, 1º, dia em que completou 40 anos de docência, Mozart ministrou palestra no Fórum do Conhecimento, evento promovido pela Universidade Tiradentes, em parceria com o IAS. Ele também conversou com o JORNAL DA CIDADE sobre os desafios da educação brasileira.



w JORNAL DA CIDADE – Qual o principal desafio para formar pessoas no Século XXI?

MOZART NEVES RAMOS – Estamos formando gente para profissões que ainda nem conhecemos. Um relatório do governo norte-americano mostra que as dez profissões que mais formaram em 2009 não existiam em 2004. É um intervalo de cinco anos, tempo médio em que formamos uma pessoa. Então, formar gente hoje é muito mais difícil e desafiador, consequentemente, precisamos pensar fora da caixa. A nossa geração sempre foi a do acerto; o estudante era excelente quando tirava nota dez e isso ainda é importante, mas não é mais o essencial. É preciso ser criativo, saber trabalhar colaborativamente, resolver problemas, ter engajamento cívico, ou seja, há outros elementos que constituem esse profissional para o Século XXI.

 

w  JC – Por que é tão difícil para o Brasil se aproximar da realidade dos países que estão no topo da educação mundial? 

MNR – O Brasil é um espadachim que precisa esgrimir com os dois braços para ser competitivo, pois tem que resolver os problemas do Século XX e, ao mesmo tempo, trazer o que há de novo na educação para a sala de aula. 50% das nossas crianças, ao final do ciclo de alfabetização, não estão nos níveis adequados de leitura, escrita e numeramento; de cada cem alunos que concluem o ensino médio, somente sete aprendem o que é esperado em matemática e 28 em língua portuguesa. A educação tem melhorado nos anos iniciais, mas as crianças de maior nível socioeconômico evoluíram muito mais do que as crianças de baixa renda. A diferença, que era de 20 pontos em 2005 – o que, na escala Saeb, equivale a quase dois anos de escolaridade –, passou para 43 pontos em 2013. Então, não temos ainda um sistema equânime. Além disso, um milhão de jovens, de 15 a 17 anos, estão fora da escola, nem estudam e nem trabalham. Quando aumentamos o escopo até os 29 anos, são dez milhões de jovens na ociosidade. Isso é um enorme desafio, não dá para ignorá-lo e pensar somente na educação para o Século XXI.

 

w JC – Como deve ser a sala 

de aula do Século XXI?

MNR – Mais simples e capaz de tangibilizar o mundo real. O jovem precisa de uma escola que caiba na vida. Se ele não encontra significado naquilo que está aprendendo, é muito difícil permanecer motivado para estudar. Além disso, é preciso oferecer uma educação integral para formar a pessoa, e não apenas o profissional. Aristóteles, há quatro séculos antes de Cristo, já dizia que educar a mente sem educar o coração não é educação. Uma boa forma de trabalhar isso é a partir dos quatro pilares da Unesco: aprender a conhecer, fazer, conviver e ser. E como colocar na prática? Desenvolvendo uma matriz de desenvolvimentos de habilidades para o Século XXI, como responsabilidade; determinação; pensamento crítico; resolução de problemas; abertura, no contexto da curiosidade; colaboração; comunicação; criatividade; e autocontrole, no sentido da autogestão. É preciso trabalhar as habilidades socioemocionais sem esquecer as cognitivas.

 

w JC – Qual a importância das novas tecnologias neste cenário?

MNR – A tecnologia é absolutamente estratégica, o mundo hoje é muito digital, e se 46% dos professores entendem que a tecnologia não é tão relevante, mas 97% dos alunos dizem que usam a tecnologia, precisamos alinhar os tempos. Tecnologia, internet banda larga não são nenhum luxo, são o lápis e o caderno do novo tempo. Não dá para fazer um trabalho de pesquisa em sala de aula sem uma internet com boa velocidade. Mas é importante ressaltar que a educação para o Século XXI não se resume a novas tecnologias. A tecnologia é meio.

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