06/03/2017 às 10h01 - Entrevista

“A vida é composta de altos e baixos”

Psicanalista fala sobre individualismo, tristeza, alegria e dá dicas.

Por: JornaldaCidade.Net

Esta semana, o leitor Reynnan Cavalcante sugeriu a pauta psicanálise. O Caderno Revista da Cidade, atendendo a sugestão, entrevista hoje a psicóloga Petruska Passos Menezes, que é formada pela Universidade Tiradentes desde 2002, primeira turma de Psicologia da Unit. Psicanalista pela International Psychoanalytical Association, primeira instituição criada pelo próprio Sigmund Freud para difundir a Psicanálise no mundo, Petruska também é Especialista em Gestão Estratégica de Pessoas, pela Faculdade de Negócios de Sergipe (Fanese) e em Gestão e Políticas Públicas, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Leia a entrevista a seguir:

RC - Na sua opinião, a psicanálise é sinônimo de psicologia clínica? Como diferenciá-las?

PP - Psicanálise é uma ciência com especificidades únicas. O trabalho psicanalítico envolve um método de escuta e uma técnica específicos. Pode ser desenvolvido, atualmente, por pessoas com nível superior que se submetam ao processo de formação psicanalítica. 

A Psicologia é uma ciência e uma profissão que aborda um campo de atuação diversificado além da clínica, como a aplicação de testes psicológicos, avaliação psicológica, orientação vocacional, psicologia escolar, jurídica, do esporte, das organizações e do trabalho, entre outros. Um psicólogo precisa fazer a faculdade de Psicologia por cinco anos e, para atuar, ser registrado no Conselho Federal de Psicologia. A clínica psicológica pode ser desenvolvida em várias linhas clínicas de atuação, inclusive a da psicoterapia psicanalítica, pois os psicólogos estudam um pouco de Psicanálise na faculdade. 

Já o psicanalista leva 5, 10, 15 anos para concluir a sua formação, nos moldes da International Psychoanalytical Association (IPA) e, para tanto, são exigidos a análise pessoal, o estudo teórico, e o atendimento e prática clínica supervisionados. São formações distintas (a Psicologia Clínica e a Psicanálise) com exigências e trabalhos também distintos 

 

RC - Qual é sua linha na psicanálise?

PP -  A minha linha é Psicanálise. As pesquisas em Psicanálise atual podem ser muitas e diversificadas, mas a linha de trabalho – o método – é o mesmo: a escuta dos aspectos do inconsciente, por meio da atenção flutuante e da associação livre.

 

RC - O ser humano é um pouco individualista. Esse individualismo causa alguma espécie de sofrimento ou convivemos bem com essa característica? O homem moderno é mais individualista do que o de antigamente e por quê?

PP - O individualismo, que na teoria chamamos de narcisismo, possui aspectos saudáveis e aspectos desarmônicos. É importante que o nosso olhar recaia sobre nós mesmos. Precisamos nos olhar e buscar o melhor para nós. Nesse contexto, o individualismo/narcisismo é construtor da identidade, pois nos auxilia a nos percebermos e conhecermos e se torna facilitador do contato e das relações com o mundo. O que existe atualmente é que há um exagero de autovalorização. Essa autovalorização acontece justamente por uma dificuldade de nos olharmos e percebermos que temos defeitos, ou não temos as qualidades e habilidades que gostaríamos de ter. Quando percebo que não sou aquilo que gostaria de ser e não suporto ser quem eu sou, o sofrimento se apresenta de uma forma muito dolorosa. Então, fecho-me em mim e me torno individualista, de uma forma não harmônica, devido a esse sofrimento que trago em mim.

 O individualismo/ narcisismo é uma característica inata do homem e, portanto, não é algo atual, mas universal e, talvez, atemporal. Mas a falta de vínculos e de tempo e dedicação ao outro, desde o nascimento, pode interferir no aumento dessa dor e, consequentemente, no aumento desse individualismo.

 

RC - Quanto às redes sociais, a julgar pela quantidade de fotos colocadas (Facebook e Instagram) de pessoas sorridentes, elas – de fato - têm aproveitado a vida e se sentem felizes? Ou, hoje, o mais importante do que ser é parecer feliz?

PP - A sociedade atual tem feito um culto à felicidade como se a vida só fosse bem vivida se a pessoa fosse feliz todo o tempo. Lamento informar, mas a vida é composta de altos e baixos. A tristeza é tão construtiva quanto à alegria. Um bom exemplo disso é o filme ‘Divertida Mente’. Os sentimentos precisam ser sentidos. Parece uma frase simples, mas atualmente as dores precisam ser anestesiadas com as mais diversas drogas, desde o álcool até os ansiolíticos. Esse movimento de exposição em redes sociais traz esse culto à felicidade, demonstrando um desejo mais do que a realidade. A realidade virtual entra, para se tentar viver nela aquilo que não se sente capaz de se viver na vida real. É sempre uma projeção dos sonhos daquilo que se quer ser. Talvez importante, dentro de todo um complexo processo de desenvolvimento pessoal, mas deveria ser temporário. Então, respondendo à pergunta, sim, existe uma necessidade superior de parecer feliz, mais do que se é realmente.

 

RC - A busca da perfeição não gera frustração, pois sempre haverá algo que a gente perdeu?

PP - O conceito de perfeição é utópico por si. Se for perfeito, não necessita de mudanças e se não necessita mudança, não há necessidade de evolução - o que vai de encontro a todas as teorias atuais, desde a evolução das espécies, de Darwin, até a crença da frustração, por não se ter o que se quer, como algo fundamental ao desenvolvimento do pensamento, segundo Wilfred Bion. Então, a busca da perfeição é um ideal, um sonho necessário como modelo para o desenvolvimento, mas como estamos em constante processo de evolução e mudança sempre existirá algo que não temos, que está em falta (para usar um termo mais técnico) e, talvez, não só porque se perdeu, mas  também porque nunca se teve. É essa falta que nos move, inclusive. A frustração, quando não em excesso e alternada com o sucesso e com o alcance de objetivos, é importante e fundante dos pensamentos e da vida.

 

RC - Como nos livrar desse sentimento?

PP - Aí é que está o segredo. Não é para se livrar. A vida é feita de momentos bons e ruins. O segredo é poder lidar tanto com a alegria, como com as tristezas, as frustrações, a raiva, o ódio. Sentimentos não são partes corporais que podem ser extirpadas. Os sentimentos surgiram por um grande motivo: permitir uma maior adaptabilidade à vida. Sentir é essencial! É pelo sentimento que posso descobrir quem eu sou, como posso me relacionar com os outros e ser empático aos demais. Como desconstruir algo tão belo e que levou tantos milhares de anos para ser construído?

 

RC - Qual o melhor caminho para o acadêmico que deseja iniciar uma formação psicanalítica depois de graduado?

PP - Estudar Psicanálise pede instituições específicas. O Núcleo Psicanalítico de Aracaju, instituição oficial da IPA em Aracaju, mantém inscrições abertas continuamente. É só fazer a inscrição e aguardar o processo seletivo feito pelo Instituto de Formação Psicanalítica. A formação é muito diferente daquilo que a Academia oferece.  Requer um tripé desenvolvido por Freud e Eitigon, que diz que só se aprende vivenciando, então são necessários análise pessoal (aprender primeiro consigo), estudo e aprofundamento teórico e da técnica, e prática clínica com supervisão. É algo que pede um investimento, principalmente afetivo.

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