04/06/2024 as 08:30

ENTREVISTA

“SE tem 111 mil desempregados, mas o desemprego já registra menores taxas”

“Em fevereiro, o nosso estado foi o que mais gerou empregos formais no nordeste, proporcionalmente”, destaca Ciro Brasil de Andrade

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Sergipe hoje tem cerca de 10% da população economicamente ativa desempregada, ou seja, são 111 mil desempregados. Mas ainda assim, o desemprego vem registrando menores taxas. A última PNAD contínua, por exemplo, apontou queda nas taxas de desemprego, além dos dados mensais do caged, que trazem resultados positivos para o estado. “Em fevereiro, o nosso estado foi o que mais gerou empregos formais no nordeste, proporcionalmente”, destaca Ciro Brasil de Andrade, Subsecretário de Estudos e Pesquisas (observatório de Sergipe) em entrevista ao Jornal da Cidade. O processo de “desindustrialização” vividos no país atingiu mais particularmente sergipe. Talvez por ter uma tradicional composição industrial em sua matriz econômica, o estado sofreu muito com a crise na cadeia de petróleo e gás e na indústria de transformação, dentre outras. Isso gerou um efeito em cadeia de desaquecimento econômico”. Ele diz ainda que o setor de serviços está se recuperando. O comércio gera hoje 180 mil empregos em todo território do estado. Ciro também garante que sergipe é um ótimo estado para se investir, a começar por sua capital. Quem conhece as outras capitais do nordeste e do país reconhece que nossa cidade é uma das mais aprazíveis e acolhedoras de se viver. Leia a seguir a entrevista na íntegra.

Por Eugênio Nascimento

JORNAL DA CIDADE - A Como estão as taxas de desemprego em Sergipe? São elevadas? Atinge quantas pessoas?
CIRO BRASIL - O desemprego em Sergipe vem registrando as menores taxas desde o ano de 2015. O estado possui cerca de 10% da população economicamente ativa desempregada, ou seja, são 111 mil desempregados. É uma realidade do Nordeste brasileiro, região que detém as maiores taxas do Brasil. Há elementos estruturais por trás disso, atinentes aos desafios da pobreza, baixos níveis educacionais, maturação da economia regional, dentre outros, mas também foram preponderantes a crise econômica e política, vivenciada desde o final de 2015, e os dois anos de pandemia. A crise de 2015 e o processo de “desindustrialização” vividos no país atingiram mais particularmente Sergipe, que, talvez por ter uma tradicional composição industrial em sua matriz econômica, sofreu muito com a crise na cadeia de petróleo e gás, na indústria de transformação, dentre outras. Isso gerou um efeito em cadeia de desaquecimento econômico. Todavia, há alguns sinais iniciais de recuperação nos anos recentes. A última Pnad Contínua, por exemplo, apontou queda nas taxas de desemprego, além dos dados mensais do Caged, que trazem resultados positivos para Sergipe. Em fevereiro, o nosso estado foi o que mais gerou empregos formais no Nordeste, proporcionalmente. Além disso, existem ações e projetos do governo do estado, como o Qualifica Sergipe e o Primeiro Emprego, que visam colaborar, a curto e médio prazo, com a melhoria desses índices.

JC - Quais são os segmentos econômicos que mais geram empregos em Sergipe? Por quê?
CB - Na ordem, os segmentos que mais empregam, considerando inclusive o mercado informal, são os de serviços, comércio, agricultura, indústria da construção civil e outras indústrias, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE). Destaca- -se que nos últimos anos têm ocorrido transformações no mercado de trabalho nacional, com o setor industrial perdendo espaço e o setor de serviços avançando cada vez mais. Em Sergipe, isso foi mais acentuado.

JC - Há uma economia de rua muito forte em Sergipe? Refiro-me a esse povo que vive vendendo frutas, cervejas, água mineral, bagos de jaca, mingaus, arroz doce, mungunzá, beijus, pés de moleques etc.
CB - Sergipe tem, sim, muita tradição de feirantes e comércio de rua. Tanto na capital quanto no interior, o dia da feira é sagrado. O grande número de feiras, inclusive, ajuda a baratear o custo dos alimentos e a movimentar a economia regional. Em alguns casos, as feiras fazem parte da história das cidades. No entanto, há também esforços do governo do estado em atrair esses comerciantes para o mercado formal de trabalho.

JC - O comércio de SE vive bom momento? Por quê? Gera quantos mil empregos?
CB - O comércio de Sergipe apresenta resultados positivos ao longo dos dois últimos anos e começa a deixar para trás a crise da pandemia. No entanto, ainda luta para recuperar aquele patamar de 2014/2015. Ele finda sendo a ponta do “iceberg” de uma economia. Ou seja, se um setor vai mal, se há queda de emprego e renda, isso vai se refletir nele. Além disso, o advento das compras virtuais também impacta, em um patamar que ainda não conseguimos mensurar. É um setor que gera cerca de 180 mil empregos, se contabilizarmos os informais. Já o setor de serviços, o maior setor econômico do estado e também muito impactado pela crise, está se recuperando com taxas melhores que o comércio.

JC - Esse comércio de rua, fora dos shoppings, vive bom momento?
CB - Acredito que depende do segmento, da localização, da gestão, entre outros fatores. Não possuímos dados para discriminar esse tipo de comércio, mas o comércio como um todo acumulou crescimento perto de 2% em 2023 e mais de 3000 postos formais gerados. É claro que alguns setores estarão melhores que outros, e alguns podem estar sofrendo com a concorrência virtual e outros desafios, como a questão do declínio dos centros das cidades.

JC - E a indústria vive bom momento? Gera quantos empregos?
CB - Alguns setores, como o da construção civil, estão dando sinais de recuperação. Também observamos certo crescimento na indústria da cana-de-açúcar e em alguns outros segmentos da indústria de transformação. No entanto, as tradicionais cadeias de petróleo e gás e de fertilizantes, e todas as indústrias correlatas, ainda enfrentam desafios significativos em razão do desinvestimento da Petrobrás nos últimos anos. Todavia, este é um setor que, possivelmente, terá uma nova oportunidade de se reestruturar com o advento do petróleo e gás em águas profundas nos próximos anos. Ao mesmo tempo, é importante que Sergipe saia da dependência excessiva dessas cadeias e diversifique cada vez mais seu parque industrial, buscando novas vocações. A indústria em geral gera cerca de 80 mil empregos, e, se considerarmos a construção civil, esse número pode dobrar, alcançando cerca de 160 mil postos de trabalho, segundo dados do IBGE, que também abrangem o segmento informal.

JC - O agro de SE está bem? Gera quantos empregos? Está em fase de crescimento?
CB - O grande destaque da pecuária sergipana tem sido a produção de leite, que vem crescendo e se profissionalizando nos últimos anos. Esse avanço não só trouxe aumento de renda e geração de empregos, mas também impulsionou a industrialização dentro da cadeia, o que é muito importante para a economia local. Poço Redondo e Nossa Senhora da Glória se tornaram polos regionais dessa área no contexto nordestino. Paralelamente, a cadeia do milho vem se expandindo bastante no estado, contribuindo para o desenvolvimento econômico de muitos municípios no interior. Hoje, metade de nossa safra é de milho, e talvez tenhamos que pensar em diversificar mais nossas plantações, até porque é uma cultura com alta dependência em relação à distribuição da chuva. Outra vertente importante é trabalhar cada vez mais o beneficiamento da produção agropecuária sergipana, para agregar valor e adensar a cadeia industrial do agronegócio. A agropecuária gera cerca de 13 mil postos de trabalho, sendo um dos segmentos com maior prevalência de vínculos informais.

JC - Sergipe é um bom estado para ganhar dinheiro produzindo e vendendo? Há espaço para o que hoje?
CB - Sergipe é um ótimo estado para se investir, a começar por sua capital. Quem conhece as outras capitais do Nordeste e do país reconhece que nossa cidade é uma das mais aprazíveis e acolhedoras de se viver. Basta perguntar a um turista e ver o que ele diz. Aliás, essa vertente turística é uma das grandes oportunidades do nosso estado, que apenas começa a ser explorada em suas mais diversas dimensões: naturais, culturais, gastronômica, religiosa, entre outras. Temos cidades no interior como Lagarto, Itabaiana e Nossa Senhora da Glória, que se consolidam como polos econômicos regionais. Com uma classe média pujante, abundância de recursos naturais e uma posição logística favorável no mercado nordestino, Sergipe possui condições ideais para oferecer tratamento e atenção diferenciados aos empreendedores que desejam se estabelecer aqui. Observo que o governador Fábio e o secretariado estão sempre abertos a pessoalmente receber novos empresários e a dialogar com o setor produtivo local. Mas talvez o grande diferencial hoje seja termos um aparato estatal que volte a pensar o desenvolvimento do estado de Sergipe em uma perspectiva de longo prazo. A recente recriação da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Inovação (Seplan) e a criação da Agência de Sergipe de Desenvolvimento – (Desenvolve- -SE) dão clara noção da importância que o planejamento governamental e econômico voltam a ter. Temas como desenvolvimento regional, monitoramento e gestão de políticas públicas, planejamento de longo prazo (Sergipe 2050), inovação, transformação digital e gestão das cidades (revitalização do Centro) estão concretamente na pauta do governo Fábio Mitidieri, visando aumentar a atratividade e competitividade do estado em âmbito nacional e internacional