09/02/2026 as 09:47

ENTEVISTA

“A lei precisa deixar claro que maltratar animal é crime sério”, Kitty Lima

Kitty também comenta os convites recebidos do senador Alessandro Vieira (MDB) e do vice-governador Zezinho Sobral (PSB) para mudar de partido.

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Por Mayusane Matsunae

Em um momento em que casos de crueldade contra animais chocam o país – como o do cachorro Orelha, em Santa Catarina, e o recente episódio do animal esfaqueado na Barra dos Coqueiros –, a deputada estadual Kitty Lima (Cidadania) reafirma seu compromisso com a proteção animal como política pública em Sergipe. Nesta entrevista ao Jornal da Cidade, a parlamentar, que se prepara para disputar a reeleição em 2026, fala sobre os avanços conquistados em seu mandato, os desafios para endurecer a legislação contra maus-tratos e os projetos estruturantes previstos para este ano. Kitty também comenta os convites recebidos do senador Alessandro Vieira (MDB) e do vice-governador Zezinho Sobral (PSB) para mudar de partido. Confira o conteúdo completo a seguir:

JORNAL DA CIDADE - Deputada, como a senhora avalia o seu mandato até aqui? Quais foram as principais conquistas e desafios enfrentados na Assembleia Legislativa de Sergipe?
KITTY LIMA – Avalio nosso mandato com muito senso de responsabilidade e de entrega concreta. Desde o primeiro dia, assumimos o compromisso de transformar a causa animal em política pública de Estado, e não apenas em pauta emocional. Conseguimos aprovar projetos importantes, garantir recursos por meio de emendas, fortalecer ONGs, viabilizar castrações, vacinação, atendimento veterinário gratuito e ampliar o debate dentro da Assembleia Legislativa de Sergipe. Os desafios existem, principalmente o orçamento limitado e a resistência cultural de quem ainda não enxerga os animais como questão de saúde pública e cidadania. Mas avançamos muito, com resultados reais e visíveis.

JC – Como deverá ser sua atuação neste último ano de mandato? Pode adiantar algum projeto que poderá ser apresentado?
KL – Este ano será de consolidação. Vamos fortalecer programas que já funcionam, como castração, atendimento veterinário e apoio aos protetores, e apresentar novos projetos estruturantes. Estamos preparando propostas voltadas à ampliação do atendimento veterinário público, fortalecimento da rede de proteção animal, cadastro estadual de protetores e medidas mais duras contra maus-tratos. A meta é deixar políticas permanentes, que continuem independentemente de mandato.

JC – A defesa dos animais é uma marca do seu trabalho parlamentar. O que a motivou a abraçar essa causa e como ela se conecta com suas outras pautas legislativas?
KL – Minha motivação vem da vivência prática. Sempre estive nas ruas, nos resgates, ao lado dos protetores. Vi de perto o sofrimento dos animais e também das famílias que cuidam deles sem apoio do poder público. A causa animal não é isolada. Ela se conecta com saúde pública, meio ambiente, educação e segurança. Maus-tratos, abandono e superpopulação impactam toda a sociedade. Por isso, defendo a lógica da Saúde Única: cuidar dos animais é cuidar das pessoas.

JC – O caso do cachorro Orelha, em Santa Catarina, gerou comoção nacional. Como a senhora avaliou a repercussão desse episódio e qual mensagem ele traz para o debate sobre proteção animal no Brasil?
KL – O caso do Orelha chocou o país porque expôs uma crueldade extrema que, infelizmente, ainda acontece. A comoção nacional mostrou que a sociedade mudou. Hoje, as pessoas não aceitam mais impunidade. Esse episódio também reforça a necessidade urgente de fortalecer leis, fiscalização e, principalmente, a educação das novas gerações. Precisamos formar jovens com valores de respeito à vida. A proteção animal não é um tema menor. É uma pauta civilizatória.

JC – Aqui em Sergipe, tivemos o caso chocante do cachorro esfaqueado na Barra dos Coqueiros. A senhora acompanhou esse caso? Que medidas concretas podem ser tomadas para evitar que tragédias como essa se repitam?
KL – Sim, acompanhei de perto. É revoltante. Um animal esfaqueado demonstra um nível de violência que ultrapassa qualquer limite. Casos assim exigem investigação rápida, punição exemplar e políticas preventivas, como castração, identificação, educação nas escolas e canais de denúncia. A violência contra animais muitas vezes é um alerta de violência social mais ampla. Precisamos agir antes que isso se repita. É importante destacar também a atuação da Secretaria de Segurança Pública, por meio da delegacia local e da Delegacia de Proteção Animal, que foi exemplar e demonstra o compromisso do Estado com a responsabilização e a segurança.

JC – Esses casos recentes expõem a urgência de mudanças na legislação. Que projetos de lei a senhora está propondo ou apoiando para endurecer as penas contra maus-tratos a animais?
KL – Estamos apoiando propostas que aumentam punições, dificultam a substituição por penas leves e criam mecanismos de responsabilização mais efetivos, em âmbito local e também nacional. Também defendemos medidas administrativas, como a proibição de guarda de animais por agressores e o cadastro de reincidentes. A lei precisa deixar claro que maltratar animal é crime sério.

JC – A legislação atual de proteção animal no Brasil é suficiente? Onde estão as principais lacunas que precisam ser preenchidas?
KL – Avançamos, mas ainda há muitas lacunas. O problema hoje não é apenas a lei, mas a aplicação. Faltam delegacias especializadas em mais regiões, perícia veterinária estruturada, políticas municipais permanentes e ações preventivas. Precisamos integrar segurança pública, saúde e proteção animal. Sem vontade política e estrutura, a lei não sai do papel.

JC – Que políticas públicas estaduais a senhora considera prioritárias para a causa animal em Sergipe? Existem projetos em andamento na Assembleia nesse sentido?
KL – As prioridades são claras: castração em larga escala; precisamos ampliar o que já foi iniciado. Os municípios devem assumir sua responsabilidade, e o Estado também avança com a chegada de novas unidades de castramóvel. Atendimento veterinário gratuito: em 2026, o governo do estado irá consolidar o Opera Pet, o SUS dos animais em Sergipe. Será um marco histórico e colocará o estado entre as referências nacionais em políticas públicas para os animais. Vacinação: é a única forma eficaz de prevenir doenças como a raiva e viroses como a cinomose, que ainda mata centenas de animais em nosso estado. Apoio às ONGs e protetores: eles têm papel histórico e fundamental. A proteção animal começou com essas pessoas, onde o Estado não chegava. Precisamos cuidar de quem cuida. Campanhas educativas e combate ao abandono: toda a sociedade precisa entender que tem responsabilidade no cuidado com os animais. Já destinamos, somente para 2026, mais de R$ 1,5 milhão em emendas para a causa animal e articulamos programas permanentes para que essas ações cheguem aos municípios de forma contínua.

JC – Como a senhora vê a questão dos animais em situação de rua em Sergipe? Há propostas para políticas de castração, adoção responsável e criação de abrigos públicos?
KL – É uma questão de saúde pública. A solução não é recolher indiscriminadamente, mas castrar, vacinar, identificar e promover adoção responsável. Em Sergipe, existe a lei do animal comunitário, de minha autoria, que reconhece a permanência desses animais nas comunidades, desde que cuidados e acompanhados. Defendo políticas integradas, com clínicas móveis, parcerias com ONGs e lares temporários. Abrigos sem gestão viram depósitos de sofrimento. Precisamos de políticas inteligentes, não paliativas.

JC – Mudando de assunto, como a senhora avalia o atual cenário político em Sergipe? Quais são os principais desafios do estado neste momento?
KL – Sergipe tem avançado com uma gestão técnica, sob o comando do governador Fábio Mitidieri. É claro que ainda existem desafios fiscais, sociais e de infraestrutura. O estado precisa de mandatos mais técnicos, menos ideológicos e mais focados em resultado. A população quer soluções práticas, não disputas vazias.

JC – A senhora deve continuar no Cidadania? Por quê?
KL – Tenho muito respeito pelo Cidadania, que sempre me deu liberdade para atuar com independência e coerência com minhas pautas. O diálogo é permanente, porque política se constrói com alinhamento de valores, não apenas de siglas.

JC – Já recebeu convites de outras siglas? Quais?
KL – Recebi convites importantes, como o do senador Alessandro Vieira para integrar a chapa do MDB e também do vice-governador Zezinho Sobral para compor com o PSB. São lideranças que respeitam nosso trabalho e a causa animal. Estamos avaliando junto ao grupo político e tomando essa decisão com responsabilidade. Onde eu estiver, seguirei com atuação firme em defesa da sociedade sergipana.

JC – A senhora já define se será candidata à reeleição em 2026? Como pretende fortalecer sua base eleitoral e quais serão as prioridades de uma eventual nova campanha?
KL – Sou candidata à reeleição. Acredito que a Assembleia deve ser um espaço das causas, com representação legítima da população. Seguiremos com atuação firme, coerente e comprometida, sempre com o objetivo de fortalecer políticas públicas e contribuir com o desenvolvimento do estado, ao lado do governador Fábio Mitidieri.

JC – Como tem sido a receptividade dos seus pares na Assembleia em relação aos projetos ligados à proteção animal? A senhora enfrenta resistências?
KL – No início havia resistência. Hoje há respeito. Muitos colegas passaram a entender que a proteção animal não é um nicho, mas uma política pública séria. Quando apresentamos dados, custos e soluções, o diálogo se torna mais fácil e produtivo.

JC – Além da legislação, que ações práticas a senhora já conseguiu viabilizar em prol dos animais durante seu mandato? Pode citar exemplos concretos de resultados alcançados?
KL – Conseguimos: mutirões de castração; vacinação; apoio financeiro e estrutural a ONGs; campanhas de adoção; distribuição de ração; articulação com municípios; emendas para atendimento veterinário. Não ficamos apenas no discurso. Atuamos diretamente para ajudar quem está na ponta.

JC – Para finalizar, que mensagem a senhora deixa para os sergipanos que também defendem a causa animal e para aqueles que ainda não despertaram para a importância dessa luta?
KL – A causa animal é sobre empatia, responsabilidade e futuro. Uma sociedade que protege os mais vulneráveis é uma sociedade mais justa para todos. E, para quem ainda não despertou, eu digo: não é só sobre animais. É sobre humanidade. Seguiremos trabalhando com firmeza, diálogo e ação concreta. Sergipe pode e vai se tornar referência em proteção animal.