14/12/2021 as 11:53
ENTREVISTACoordena o Grupo de Estudos Winnicott e Grupo de Estudos Bion. Vamos saber sobre os seus cuidados com a alma humana
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A nossa convidada é Stela Santana, médica e psicanalista graduada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS); Especialista em Pediatria e em Medicina de Adolescentes; Formação em psicanálise pela International Psycoanalytical Association; Membro Efetivo e Analista Didata da Sociedade Psicanalítica do Recife; Membro da Federação Brasileira de Psicanálise; Membro da Federação Latino Americana de Psicanálise; Membro da International Psycoanlytical Association; Ministrou e coordenou cursos de extensão e pós graduação em Terapia Psicanalítica e Psicanálise, com Trabalhos publicados em Livros e Revistas Científicas. Coordena o Grupo de Estudos Winnicott e Grupo de Estudos Bion. Vamos saber sobre os seus cuidados com a alma humana.
THAÏS BEZERRA - Nesses quase dois anos de pandemia, como está a cabeça e o emocional do ser humano na sua avaliação?
STELA SANTANA – A pandemia é um acontecimento traumático, coletivo, semelhante às guerras, com um agravante, o inimigo é invisível. A vida cotidiana e a dignidade são ameaçadas em proporções nunca pensadas, produzindo distúrbios graves, a perda da identidade, de sentido, o desamparo,”a angustia branca”, sofrimento psíquico mudo das patologias do vazio. Ao longo deste dois anos de pandemia, podemos observar um aumento considerável destas patologias, depressão, suicídio, doenças psiquicossomáticas, adição à drogas. A psicanálise promove a transformação da ameaça de morte em algo pensável, o desenvolvimento da resiliência mental para o enfrentamento do traumático, a restauração da capacidade de representar e simbolizar o sofrimento.
TB - Ainda existe tabu com a idade para ir ao consultório de um psicanalista?
SS – Sim. As crianças se beneficiam da análise quando estão expostas a situações que provocam um sofrimento além da capacidade de suportá-lo. Insônia, irritabilidade, somatizações, transtornos autistas etc., são indicações para a análise infantil. Pessoas idosas têm na psicanálise a oportunidade de descobrir novos sentidos para a vida, de restaurar a capacidade de sonhar, de utilizar sua potencialidade criativa, de sentir que a vida vale a pena.
TB - Como funciona a abordagem do seu trabalho com os jovens? Hoje precisando tanto de terapia…
SS – É verdade Thais, o adolescente e o jovem enfrentam além dos conflitos próprios da idade, as vicissitudes da contemporaneidade, o imediatismo, a competição selvagem, a exaltação do individualismo, a cultura do ter no lugar do ser, o mundo virtual. Este contexto sociocultural dificulta a transição adolescente, marcada por intensas e rápidas mudanças físicas e psíquicas, pela intensificação dos impulsos e pelo empobrecimento do ego, o que os tornam mais vulneráveis. Através da continência, da capacidade de reverie, o analista transforma e nomina as angústias do adolescente, promovendo assim o desenvolvimento da capacidade de pensar, a transformação da desilusão em esperança.
TB - Estudos dizem que a Psicanálise é a mais rica área do saber humano nos dois últimos séculos. O que você diria sobre isso?
SS – No final do século XIX ao século XX, Freud além da ciência do seu tempo, a partir da cultura, da clínica e da autoanálise forja a ideia de um mundo além da consciência, o Inconsciente, conceito central na psicanálise. Freud confirma a primazia dos inconsciente, território estrangeiro onde habitam os desejos recalcados. A psicanálise visa tornar consciente o que é inconsciente, saber mais sobre si mesmo, saber mais sobre nossas dores e nossos amores. Saber mais para lidarmos melhor conosco e com o outro, para tornarmos responsáveis por nossas escolhas.
TB - Como tratar a alma e a mente das pessoas nesse mundo tão desornado nas emoções?
SS - Na clínica contemporânea nos deparamos frequentemente com pacientes incapazes de expressar o que sentem, apresentando desarmonias em relação aos processos de simbolização, de representação. Ao longo do processo analítico constitui-se um desafio, visitarmos repetidamente um espaço tempo onde a potencialidade criativa do paciente pode ser reabastecida ou construída contando com o suporte do sonhar e do pensar do próprio analista. A arte da psicanálise consiste na capacidade de compartilhar espaços mentais secretos e proibidos de maneira aceitável pela civilização, de ampliar as potencialidades dos participantes tornado suas vidas mais criativas e significativas.