24/05/2019 as 09:26

Opinião

O preço por não popularizar: ataques à ciência desconstroem o sentido da academia

Caio Guimarães é mestre em Educação (Unit) e doutorando pela Universidade de Aveiro (Portugal)


A ciência brasileira está em apuros. Não somente pela ação implacável do governo federal no sentido de desconstruir órgãos, cortar bolsas e financiamentos, mas principalmente pela culpa que os próprios cientistas carregam de afastar aquilo que eles produzem do cotidiano das pessoas. O brasileiro não sabe o que é produzido nas universidades, não conhece os sistemas da academia e não entende a utilidade da ciência em seu cotidiano. Isso é, em parte, resultado de uma cultura que não valoriza a academia, mas muito desse quadro foi construído pela postura dos próprios pesquisadores.


Quem frequenta programas de pós-graduação e circula por núcleos, grupos e laboratórios, sabe que há uma postura que chega a ser arrogante por parte dos cientistas: se não entende minha linguagem, não merece o esforço de minha fala. As ações de comunicação ocorrem entre pares e estão restritas a publicações de artigos técnicos em revistas especializadas ou eventos acadêmicos (na maioria das vezes um público tão limitado que os trabalhos não são conhecidos pela maior parte dos próprios cientistas, mas essa é outra questão, ainda mais grave).


O que precisa ser considerado é o fato de que a ciência existe para uma finalidade muito simples: resolver problemas do cotidiano. Na academia são criadas tecnologias que vão resultar em produtos mais baratos, remédios com efeitos colaterais menos agressivos, instrumentos que vão facilitar a aprendizagem de alunos ou a formação de professores. Tudo é muito simples, mas o cientista veste a fantasia do detentor absoluto de conhecimento, intocável, incompreensível aos leigos e ao invés de comunicar o que conseguiu, alimenta o mito da torre de mármore.


Explicar tecnicamente o que produz é uma etapa fundamental do progresso científico, mas nenhuma descoberta tem sentido se não for comunicada aos reais interessados, a população. A premissa é ainda mais justificável se considerarmos que no Brasil, toda pesquisa (independente de ser realizada em universidade pública ou privada) é desenvolvida com dinheiro do governo, quer seja por meio de financiamento direto ou contrapartida. É obrigação contar de forma acessível a todos, o que foi feito, quem fez, quanto custou e quais os resultados. É o que cobramos de políticos, empresários e funcionários públicos. É o que devemos defender e praticar enquanto cientistas.elhores que todos os outros (olha aí a arrogância!).


Enquanto isso alguns tiveram a inteligência de preencher essa lacuna. Ocuparam as redes sociais com mentiras, notícias falsas, fotos descontextualizadas e acoplaram ao cientista a imagem do desocupado que consome dinheiro do governo sem produzir, enquanto faz balbúrdia (sic). O estrago está consolidado. Quem não tinha contato com a academia não encontrou diálogo, afinal, cientista não sabe se comunicar com quem não faz ciência. O resultado de todo esse processo é que agora, um grupo que muito tem a contribuir com a sociedade, que historicamente resolve problemas de primeira ordem, que investe muito dinheiro em especialização e passa horas exaustivas dedicando-se a encontrar soluções para problemas de todos, virou o inimigo da nação.
Há lições a aprender? Sim. É preciso estimular as práticas de divulgação e popularização de ciência facilitando o entendimento de quem não frequenta laboratórios sobre o que é o método, qual a importância da filosofia, quais os processos de produção científica e os impactos dos resultados de pesquisa. Isso se faz em feiras, em visitas a instituições, em mostras, mas só será um trabalho efetivo quando utilizar a linguagem e a plataforma que as pessoas usam. É preciso divulgar ciência nas redes sociais, na internet, nas escolas.


Não somente isso. É preciso abrir a universidade ao povo, deixar que as pessoas conheçam os laboratórios e conversem com os cientistas. Mais ainda, é preciso ensinar o cientista que ele não é um nobre que não se mistura, mas sim um profissional altamente qualificado que tem a função importantíssima de utilizar dinheiro público para pôr em prática aquilo que o intelecto desenha. O cientista deve conhecer seu contexto cultural, conhecer as pessoas para as quais ele produz e circular pela sociedade. Só assim a ciência irá superar essa fase tenebrosa que vivemos e teremos a garantia de que nada próximo ao que testemunhamos será repetido.