02/08/2026 as 17:25

OPINIÃO

Aracaju dos anos 1980 e a juventude



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Aracaju dos anos 1980 e a juventude

Há lembranças que o tempo não consegue apagar. Pelo contrário, ganham novas cores. Basta ouvir uma música dos anos 1980 para que a memória nos leve de volta a uma Aracaju mais calma, onde a felicidade cabia em um sorvete, em uma sessão de cinema ou em uma caminhada pela Praia de Atalaia.

É curioso perceber que os jovens daquela época são os "coroas" de hoje. O espelho revela cabelos grisalhos, mas o coração continua guardando a mesma inquietação de quem acreditava que a vida estava apenas começando. A cidade era pequena o suficiente para que todos se encontrassem. Cada escola tinha sua

turma, suas rivalidades saudáveis e suas histórias. O Colégio Unificado, o Pio X, o Aplicação, o Salesiano, o Arquidiocesano, a Escola Técnica Federal e a então Faculdade Tiradentes formavam muito mais do que estudantes. Formavam amizades, paixões e sonhos que atravessaram décadas.

As tardes terminavam nas sorveterias. Quem viveu aqueles anos certamente se lembra da Cinelândia e da Vi Sabor, pontos de encontro onde um sorvete rendia horas de conversa. Não havia pressa. O tempo parecia caminhar devagar.

Os cinemas eram templos da imaginação. O Palace, o Cinema Aracaju e o Vitória iluminavam as noites da cidade. Cada estreia era um acontecimento. As filas na calçada, a ansiedade antes de apagar das luzes e os comentários na saída faziam parte do espetáculo.

Nos fins de semana, a juventude tomava conta da Praia de Atalaia. Caminhava pelo calçadão, encontrava os amigos, paquerava e sonhava. Os clubes — Associação Atlética, Cotinguiba, Vasco e Iate Clube — eram os grandes palcos dos bailes, dos carnavais, das festas e dos primeiros romances. Bastava combinar o local e o horário. Todos apareciam. Não existiam mensagens instantâneas, apenas a palavra dada.

Era uma juventude que aprendia a esperar, a conversar olhando nos olhos, a escrever cartas, a fotografar apenas os momentos realmente especiais. Havia menos tecnologia e muito mais convivência.

A cidade cresceu, os costumes mudaram e a modernidade transformou quase tudo. Muitos daqueles lugares desapareceram, outros resistem apenas na lembrança. Mas existe uma Aracaju que permanece intacta: a que mora na memória de quem viveu os anos 1980.

Talvez seja esse o maior patrimônio daquela geração. Não são apenas as fotografias guardadas em álbuns antigos, mas a certeza de ter vivido uma época em que a amizade era presencial, os encontros eram verdadeiros e a felicidade não precisava de filtros.

Quando um velho colega de escola reaparece, quando alguém comenta um baile no Cotinguiba, um sorvete na Cinelândia ou uma sessão no Palace, percebemos que o tempo passou apenas no calendário.

Dentro de nós, a Aracaju dos anos 1980 continua viva. Continua jovem. Continua caminhando pela Atalaia ao entardecer, enquanto nós, agora orgulhosamente 50+, descobrimos que a saudade é apenas outra forma de agradecer por termos vivido uma época que jamais deixará de existir em nossa memória.

Katia Marinho - Jornalista