29/06/2026 as 12:22
BANCO DO NORDESTEJosé Marcelino mudou a vida da família com o apoio do BNB, tornando sua propriedade rentável e sustentável
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Por Dilson Ramos | Da Equipe JC
O nascer do dia em Grotão é parecido com o de outras comunidades rurais em Sergipe, com a presença de vendedores batendo de porta em porta. Junto com o homem do pão sempre aparece José Marcelino de Andrade, 52 anos, entregando galinhas abatidas. Conhece cada cliente pelo nome. “Construí amizades nesse lugar. Paro para conversar, anoto tudo em uma caderneta. O que está anotado ali não é só o valor da venda, é o valor das relações”, observa. Em Grotão, a tecnologia ainda não substituiu o tradicional “caderno de fiado”.
José Marcelino é dono de uma propriedade rural na região. O povoado é uma comunidade situada em Estância, a 66 quilômetros de Aracaju, que se destaca pela forte identidade comunitária e pela conexão com a natureza. Formado por pequenas chácaras e sítios, onde o forte é a agricultura familiar, o povoado mantém o ritmo pacato, no qual os moradores preservam laços de confiança.
“Quando cheguei aqui, há cinco anos, era apenas mato. Até as ferramentas para trabalhar pegamos emprestadas com o vizinho”, conta José Marcelino, citando as dificuldades que encontrou ao desembarcar na propriedade de cinco tarefas, no povoado Grotão. Transformado pelo crédito obtido por meio do Pronaf B (microcrédito produtivo rural) do Banco do Nordeste (BNB), o sítio tornou-se rentável e garante conforto para os membros da família.
O local, que hoje impressiona, já foi puro mato e abandono. A localidade abriga duas casas. Numa delas, onde mora José Marcelino, é possível notar alguns confortos, como uma picape estacionada na varanda, energia elétrica, água encanada, internet de banda larga e gás de cozinha fornecido pela própria propriedade. No telhado, placas de energia solar apontam para uma das soluções encontradas por ele para baratear os custos e receber o rótulo de agricultura familiar sustentável. O gás, usado na cozinha, é produzido por meio de um biodigestor.
O Banco do Nordeste tem dado atenção especial à agricultura familiar. Em Sergipe, o Agroamigo investiu R$383,5 milhões no ano passado, somando mais de 25 mil operações. Este ano, o banco estima ter investido recursos da ordem de R$204 milhões em contratações de microcrédito rural no estado. O parceiro dessas mudanças em Grotão foi Kassio Trindade, coordenador da unidade Agroamigo da agência do BNB de Estância, recebido sempre com sorrisos largos pela família. Ele garantiu acesso à linha de crédito, que é direcionada a agricultores familiares de baixa renda.
“Aqui em Grotão nós temos esse exemplo de sucesso, mas existem outras lindas histórias, em que a gente escuta o cliente dizer que chegou sem nada, com uma casinha pequena, com uma vaquinha, e hoje possui um rebanho, possui uma estrutura dessas”, relata. Kassio lembra que a família, quando chegou ao banco, ouviu a primeira pergunta: “Qual é o seu sonho?”.
“A partir daí, buscamos facilitar o crédito, fazer com que o cliente saiba que a sua propriedade pode dar resultados. Não teve exemplo mais bonito que este aqui: um ciclo produtivo em que ele criou os filhos, está criando os netos, e os filhos trabalham juntos aqui na comunidade. Não é preciso o filho sair para outra cidade para trabalhar. A gente está falando de cinco tarefas de terra, onde ele consegue se sustentar e viver bem”, destaca.
Sustentabilidade
A propriedade de José Marcelino não é apenas um caso de sucesso do Agroamigo. É também um exemplo de sustentabilidade. No sítio, há marcas do BNB em quase tudo. Além da energia solar, da criação de aves e suínos, o crédito impulsiona também um ciclo de reaproveitamento que atende aos pequenos plantios de maracujá, macaxeira e inhame. As fezes dos porcos e dos frangos alimentam um biodigestor, e a compostagem torna o plantio viçoso. A família aprendeu como poucas a importância de não impactar o terreno com resíduos e de extrair dos dejetos o gás e o adubo de que tanto necessita.
“Como a gente faz o abate do frango aqui mesmo na propriedade, as vísceras e o sangue abastecem o biodigestor, incluindo as fezes dos porcos daqui da propriedade. Com a produção do gás, hoje nós temos autonomia e não precisamos mais comprar gás de cozinha”, conta Giselia de Lima, matriarca da família.
A conta de energia elétrica girava entre R$1.200 e R$1.300 por mês e, com a instalação de 14 placas solares, o valor caiu para R$300, por meio de financiamento adquirido junto ao Banco do Nordeste. Agora, com o crescimento da produção, a família pretende ampliar o sistema para 20 placas solares.
José Marcelino tem atualmente 50 porcos em regime de engorda e 1.800 galinhas, que são entregues já abatidas. Antes, as galinhas eram entregues vivas, mas a margem de lucro não agradava. Com investimentos em equipamentos para o abate das aves, esse cenário mudou. O primeiro crédito serviu para a captação de água e para garantir o abastecimento por meio de poços artesianos. A soma total de todos os créditos está em torno de R$100 mil.
O pequeno sítio é uma propriedade familiar na qual todos estão envolvidos na produção. O núcleo familiar de José Marcelino é formado pela esposa, Giselia de Lima; pela filha, Aysla de Lima; pelo filho, Alex de Lima; e pelo genro, Josevan da Silva. Agora, a meta é ampliar os negócios com um projeto de irrigação. A propriedade conta com um sistema rústico, que será ampliado.
“Quando a gente chegou aqui, verdadeiramente eu me senti em um deserto, porque só tinha mato. Foi por meio do Banco do Nordeste, com os empréstimos e a gente pagando regularmente, que evoluímos. Hoje não pagamos nem pela energia nem pelo gás que consumimos. Ficamos abismados com o fato de as fezes dos animais gerarem esse gás, como se fosse o mesmo gás que a gente compra em botijão”, diz Giselia.