06/05/2026 as 09:44
COMPORTAMENTODe acordo com o psicanalista Nelson Mendonça, o fenômeno não é apenas uma percepção de solteiros convictos, é uma realidade que ganha contornos complexos nos consultórios
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Basta um deslize rápido na tela do celular para que a promessa de um novo encontro surja. Flores, jantares, conversas que atravessam a madrugada e aquela adrenalina típica de quem acaba de descobrir um novo universo no outro. O cenário parece perfeito, mas para muitos, ele tem prazo de validade curto: o tempo exato de o "romance" ameaçar virar "relacionamento".
De acordo com o psicanalista Nelson Mendonça, o fenômeno não é apenas uma percepção de solteiros convictos, é uma realidade que ganha contornos complexos nos consultórios. “A sociedade contemporânea cultua a fase da conquista como um fim em si mesma. As pessoas estão ávidas pelo brilho nos olhos, pela validação que o outro proporciona e pela estética do casal ideal. Isso é o romance. O problema começa quando a projeção cai e o humano aparece", explica Nelson Mendonça.
O psicanalista esclarece que o relacionamento é, por definição, o campo do real. É onde se lida com o mau humor, as manias e as inevitáveis diferenças de valores. “Estamos assistindo a uma fuga em massa da intimidade real. Ter um relacionamento dá trabalho, exige manutenção e, principalmente, exige abdicar da ideia de que existe alguém 'perfeito' logo ali na próxima esquina digital”, diz.
Para o psicanalista, a lógica do consumo transformou o outro em um produto de entretenimento. Quando o encantamento inicial dá lugar à necessidade de compromisso, muitos recuam por medo de perder a autonomia. "Há um medo latente de perder a liberdade, mas o que muitos não percebem é que essa liberdade absoluta de não se vincular a ninguém acaba se tornando uma prisão de solidão acompanhada", pontua.
A chave para romper o ciclo de "romances-relâmpago", segundo o especialista, é o entendimento de que o relacionamento real só começa quando o romance idealizado termina. "O amor maduro nasce do luto da perfeição. Enquanto buscarmos apenas o frio na barriga, seremos eternos turistas emocionais: visitamos várias paisagens, mas nunca criamos raízes em lugar nenhum", conclui Nelson Mendonça.